segunda-feira, 14 de março de 2011

Curtas


Quando eu era pequeno, lá pelos doze anos, eu lembro que tinha um caderno onde colava recortes de jornal com fotos de mulheres nuas, seminuas ou simplesmente lindas. Lembro também que a melhor época do ano pra colar os meus recortes era no carnaval. Como tinha mulher bonita no jornal nesta época do ano! Eu e meu tio, que também acompanhava o meu pequeno caderno-resvista-pornografico, discordávamos um pouco quanto a mulheres, naquela época eu preferia as mulatas com seus vestuários minúsculos e um salto alto enorme sambando no meio da Sapucaí, enquanto ele preferia as loiras atrizes de novela. Bons tempos. Dia desses encontrei esse velho caderno em um baú de coisas velhas. Engraçado como ele já não desperta mais o meu interesse...


Imagem de Henri Cartier-Bresson


Musica I'm a fool to want you - Billie Holiday




sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cartas


Caro amigo Adrian,

Escrevo esta carta pra te contar o último sonho que tive que foi bem estranho. Estava deitado, dormindo, quando de repente me vejo tomado por estranhas criaturas feitas de papel e com varias patas que andavam por cima de mim. Levantei assustado e corri para o canto do quarto, o quarto inteiro repousava num intenso breu que não permitia enxergar a mais de dois palmos de distância. Mas antes que apavorado corresse pude ver que as criaturas na verdade eram aranhas, aranhas do tamanho da minha mão, e elas eram feitas de papel em formato espiral, e claro só posso dizer que eram aranhas porque sonhava, e este fato me dava certeza de que aquelas espirais eram aranhas gigantes. Muito apavorado e não podendo mais vê-las tentei tatear com os pés para sentir se elas estavam realmente na cama, que cena deplorável. Mas eu as senti, e retirando o pé comecei a tremer e a suar frio, estava escuro e eu não sabia por onde mais poderiam estar àquelas criaturas asquerosas mesmo que geometricamente estáveis. Tomando-me de coragem salte por cima da cama, dessa vez sem senti-las, corri para o interruptor e acendi a luz. Nada, nenhuma aranha, ou espiral caminhante. Apenas a cama revirada e a imagem do meu corpo em suor estampada no lençol.

Até ai você deve estar se perguntando caro amigo o porque de eu ter te escrito esta carta para contar-te apenas um sonho que talvez nada tenha de tão interessante. Então, eu sonhava, é verdade, mas estava acordado, não sei o que se passou, pois eu não dormia, eu realmente estava de pé no meu quarto, eu não dormia Adrian!

Temo que eu esteja adoecendo amigo.

Do mais sabes de tudo, e tudo corre conforme deve correr.


Quatro de fevereiro de dois mil e onze.

Boris.

“A lâmpada apagou-se.” – Álvares de Azevedo

Imagem de M. C. Escher


Música Não sonho mais – Chico Buarque



domingo, 21 de novembro de 2010

Curtas


Vivemos num mundo de merda sendo cagadas diariamente por informações inúteis em nossas cabeças. _Onde mesmo que eu li isso _Eu acho que já vi isso em algum lugar _Eu conheço essa musica _Ah não, era outra. Desespero, desenfreado, disfuncional. Sinto que morrerei por tentar engolir o mundo, minha cabeça se partirá e com um sorriso no rosto lembrarei quanto tempo perdi. Não existe morte feliz, existe apenas a vida.

Pequena visão de Bosch.

Bosch não pintava para ser apreciado, pintava para ser digerido, como em um grande banquete em que se come devagar e pausadamente para saborear cada pedaço.

“À esquerda dois homens encapuzados brincam de enfiar um galho de carvalho seco nos orifícios de outro homem que jaz dependurado pelo pescoço em outros galhos secos. Eles riem e saltam de um lado pro outro enquanto urram feito animais. Estão no alto de uma fortificação que separa o inferno e o purgatório. Ao redor da torre que tem a aparência de uma laranja insetos gigantes com o aspecto de ameixas com asas e cabeça de beija-flor circulam. Mais abaixo, ainda na esquerda um homem santo mutila homens com cabeças de animais que forçam a entrada tentando sair do inferno. Os membros mutilados caem numa vala comum.”

Depois que saem de mim as palavras já não me pertencem mais. Passam a ter vida própria.

Cada dia que passa eu vejo mais claramente que escrever é um dom. Um dom que eu não possuo.

“(...) violinista e compositor Giuseppe Tartini, que sonhara que o Diabo (seu escravo) executava no violino uma prodigiosa sonata; o sonhador, ao despertar, deduziu de sua imperfeita lembrança o Trillo del Diavolo.” Borges – Outras Inquisições


Imagem de Hieronymus Bosch


Musica Trillo del Diavolo – Giuseppe Tartini