Mostrando postagens com marcador Ensaio Circense. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ensaio Circense. Mostrar todas as postagens

domingo, 17 de maio de 2009

Terceira Parte – Apresento-lhes a Roda de Fogo



Pequena Nota – Não sei se os poucos leitores deste blog sentiram minha ausência no ultimo domingo, mas mesmo assim venho dizer-lhes que o motivo foi ter eu adoecido e que agora já me encontro curado. Quanto ao post de hoje, sei ser confuso e provavelmente sem um final ainda. Não sei quando continuarei essas historia que cada vez se alarga mais, porém quando o fizer podem estar certo de que a postarei por essas bandas daqui. Um Grande Abraço a todos.

Ensaio Circense- Doppelgänger


Doppelgänger - Crime


Uma noite quando me dirigia para o lugar onde nos encontrávamos, que mudava obviamente de cidade para cidade, mas que era sempre no lugar mais alto que conseguíamos encontrar, ouvi uma discussão, uns barulhos secos e um grito. Corri, chorava enquanto corria, não sabia porque chorava nem porque corria. Minha consciência me dizia que não era ele, sempre se atrasava, não tinha por que ser ele. Quando me aproximei da clareira que ficava no alto de uma colina vi uma pessoa em pé com um pedaço de madeira na mão, enxuguei-me das lagrimas e gritei a pessoa perguntando-lhe se estava tudo bem, a resposta me deixará mais preocupado do que poderia imaginar. A pessoa em pé era Eu. Quando me aproximei ele, que na verdade era eu, largou o pedaço de pau e começou a correr. Quando cheguei ao topo do morro vi. E era ele. Era Philip, meu amor. Morto, com a cabeça rachada sangrando mais do que deveria alguém que tivesse qualquer perspectiva de viver. Só naquele instante pude perceber o quanto o amava, o quanto queria que ele voltasse a viver, o quanto eu simplesmente o queria. Era ele. Ele.

Meu tio então apareceu ao meu lado, com a mão ensangüentada, e a camisa também, tocou me o ombro, não me lembro dele ter me perguntado nada. Mas com certeza deve de telo feito. E eu só podendo responder-lhe o que fiz devo telo dito que eu o havia matado. Não me lembro, e nem sei se quero me lembrar. Só sei que quando me dei por mim novamente estava ensacando o corpo de Philip, era ele, meu amor. Morto. Era ele. Ele. Meu tio me explicava o ocorrido, me dizendo, enquanto apontava para Philip e o chamava de bastardo, que ele vinha aqui para encontra-se com minha tia, que os dois tinham um caso e que sedo ou tarde aquilo iría acabar acontecendo. Então era verdade, eu havia matado Philip. Eu havia descoberto tudo e por isso o matara. O que eu não entendo é como Philip poderia ter me enganado daquele jeito. Todos no circo sabiam, menos meu tio, que minha tia tinha um caso era com meu Pai e não com Philip, será que ele me traiu?

Minha cabeça estava a mil. Philip estava morto, e isso eu jamais poderia mudar e nem quem o matará que era ninguém menos que eu mesmo, nos os artistas de circos somos vistos como os ciganos eram vistos antigamente, enquanto nos apresentamos somos maravilhosos, porém a vida que não se restringe as duas horas de show, somos meros ninguens pessoas a margem sem direitos ou deveres, sempre nos olham entranho nas cidades. Enquanto ajudava meu tio a ensacar o corpo que não parava de sangrar pensava no que deveria fazer. Cavamos uma cova rasa, ali mesmo onde nos últimos meses me encontrará com Philip, ajudei meu tio a fechar o buraco e voltamos para o circo. Na volta ele me aconselhou a não contar a ninguém o que eu, havia feito. Era tarde, todos dormiam, tomamos banho e queimamos as roupas, daqui a uma semana iríamos embora daquela cidade e ninguém mais poderia nos acusar de qualquer crime, me dizia meu tio, que continuava dizendo ser quase impossível que –lhe achassem o corpo.

O hoje é o dia seguinte ao fato que estou a contar. Escrever. Por que escrevo? Pra quem escrevo? Amasso folhas de papel em branco, desejo escrever, preciso escrever. Escrevo para revelar o mal entendido, para proferir o meu amor por Philip, para parar de sofrer. Porém essa dor no meu peito não cessa, é a dor de um amor perdido antes mesmo que eu tivesse a consciência de tê-lo tido. Assino a folha e deixo dentro do trailer de Philip no bolso de sua camisa. Apanho uma muda de roupa e com a cara ainda maquiada pego carona num ônibus que vai dar na praia, quero ver o mar. O palhaço quer mergulhar.

Fim Parte Dois


Imagem de Marc Ferrez


A vida itinerante - Ensaio Circense

Independente apesar de interligado, igual a vida.

domingo, 3 de maio de 2009

Segunda Parte – Apresento-lhes o Trapezista


Ensaio Circense- Doppelgänger

Doppelgänger - Crime


Ele chegou numa manhã de terça-feira, eu cortava o capinzal para que pudéssemos armar a tenda. Era trapezista, chamava-se Philip. O circo não precisava de mais, éramos pequenos e gostávamos assim, mas também era real que meus tios estavam envelhecendo, e no circo só quem pode envelhecer é o palhaço, este tende morrer rindo. E exatamente por isso Charles contratou Philip, meu tio não gostou nada da idéia, e sendo minha tia dez anos mais nova do que meu tio, ele acabou rapidamente, depois de alguns meses, o substituindo. Mas isso não foi o pior, Philip acabou se aproximando muito da minha tia, afinal treinavam juntos quase que o dia inteiro e depois se apresentavam à noite. Eu também me aproximei bastante do nosso novo trapezista, afinal tínhamos quase a mesma idade era natural que isso acontecesse. Nos dias de folga saímos juntos à noite para comemorar a apresentação bem sucedida ou simplesmente por não agüentarmos mais as cercanias do circo. Quando não estávamos treinando ficávamos conversando, seja sobre a noite anterior ou sobre qualquer assunto que se possa imaginar, ele era fantástico, sabia muita coisa do mundo e conversava sobre o que quisesse sem parecer idiota, as garotas o adoravam. Todos no circo o adoravam, ele possuía um poder de sedução extraordinário que a todos encantava, a exceção de meu tio, que cada dia que passava parecia mais carrancudo e infeliz de um jeito que eu jamais imaginei ver.

A beleza do prodigioso trapezista era indiscutível. Não sou homossexual gosto muito da visão do corpo feminino, do cheiro do corpo feminino, mas ele de alguma forma também me seduzia, não saberia explicar. Um dia quando voltávamos bêbados de uma pequena festa de uma cidade do interior rolamos morro a baixo em uma ribanceira que de tão bêbados e de tão escura nem quando terminamos de rolar conseguíamos vê-la direito. Lá embaixo bêbados e doloridos ficamos deitados por uns dez minutos rindo sem parar. Quando conseguimos parar de rir e olhamos para o céu ficamos atônitos com a beleza que as estrelas produziam em nossos espíritos mesmo tão distante de nossas cabeças. Nos beijarmos não passou de conseqüência da beleza do momento somada a ternura encadiada pelo álcool. Todavia as conseqüências foram além daquele dia. No dia seguinte quando nos sentamos em um lugar distante e deserto, para conversar sobre o ocorrido do dia anterior e estabelecermos nossas próprias masculinidades afirmando de forma cristalina nossa heterossexualidade, acabamos por fazer sexo. Era noite de lua cheia, nos enrolamos na tenda que estava desamarrada, pois no dia seguinte partíamos. A escuridão nos protegeu dos olhares alheios. Todos dormiam e as luzes da pequena cidade onde estávamos não chegavam a nos iluminar. Não nos víamos nem a um palmo de distancia. Não nos víamos, apenas nos tocávamos. E tenho de confessar-me a meu heterossexual interior que foi muito bom, e ele há de concordar. A partir daquele dia começamos a namorar em segredo, nos beijávamos escondidos, não por vergonha ou medo do que os outros poderiam pensar, mas por medo e preconceito de nos mesmos que imaginamos que o que sentíamos um pelo outro poderia muito bem acabar de um dia para o outro. E acabou.


Continua...

Imagem de Marc Ferrez


A vida itinerante - Ensaio Circense
Independente apesar de interligado, igual a vida.

domingo, 26 de abril de 2009

Primeira Parte – Apresento-lhes o Palhaço


Ensaio Circense- Doppelgänger

Doppelgänger - Crime


Homem. Mulher. Outro homem, outra mulher. Muitos. Será possível que eu tenha em mim ambos o sexo? Será possível que eu abarque em meu corpo mais de um? Olho-me no espelho e não reconheço homem nem mulher, entretanto reconheço a mim. Um homem me fala ao pé do ouvido, enquanto uma mulher ajeita-me a roupa. Estou pronto para entrar, pelo menos é o que pensa meu pai. Subo no meu monociclo e girando sobre minha cabeça cinco garrafas de vidro atravesso a cortina vermelha. O circo esta cheio, pessoas que não conseguiram lugar se amontoam na armação de ferro que concebe a escada, sentadas nos degraus olham-me com um ar sorridente, estão todas aparentemente felizes. Recebo as gargalhadas do publico, mas não sei do que riem, será que por de baixo dessa maquiagem não percebem eles a minha tristeza? Enquanto pedalo em círculos lembro-me dos acontecimentos recentes, que tem transformado minha vida em um pesadelo concreto.

Chamo-me P., vivo no circo desde que nasci, não digo que more no circo, pois nunca ficamos mais de um mês em lugar algum, a exceção duma ou outra vez quando vamos a capital. Minha mãe faleceu assim que nasci e meu pai, de nome Charles, é o apresentador e faz tudo da parte administrativa do circo. Ele e meus tios, por parte de pai, foram muito novos para o circo, logo que minha mãe engravidou. Eles tiveram de fugir do meu avô que queria matar meu pai por ter deflorado sua pequena filhinha, minha mãe na época tinha dezesseis anos. Os meus avos eu não conheço nem por foto, todavia não sinto lá muita falta dessa família, o circo sempre foi uma grande família pra mim. Da minha infância não tenho do que reclamar, sempre me diverti, afinal era eu uma criança no circo. Fui crescendo e o encanto, tenho de confessar, foi perdendo o brilho, já não possuía mais aquele fascínio. A adolescência passou sem muitos conflitos além do normal. Bebida, cigarro e mulheres. Até o dia em que ele chegou.

Ouvi o barulho das garrafas caindo no chão. Só tinha uma ainda intacta que segurava com a mão esquerda. Rapidamente vi Charles, apresentador e palhaço principal, que possuía a metade do circo e era o chefe por ser também o mais antigo. Quando consegui virar o monociclo em sua direção percebi que ele carregava uma torta, e obviamente não era para ninguém ali dentro daquela tenda comer, mas sim para sujar o palhaço. Recebi a tortada e sendo impossível me manter ainda equilibrado fui ao chão. A platéia ria de se acabar enquanto eu me acabava nos cacos de vidro. Sem problemas, ossos do oficio. Sai discretamente enquanto entravam meus tios já encima do mastro principal. Enquanto me dirigia para o lado de fora da arena vi que já acendiam a roda de fogo, onde meus tios teriam de cruzar para, num instante, darem as mãos e se salvarem da queda livre factivelmente provocada pela deusa Gravidade, a mãe de todas as quedas. Sempre que via aquela roda em chamas lembrava-me do cuspidor de fogo que sempre me dizia quando jovem que “a roda de fogo para qual nos atiramos deixa de ser a roda da morte e passa a ser à roda da vida, da vida renovada, no momento em que do outro lado retorna o artista”. Sabias palavras de um homem que passou a vida toda engolindo fogo para ter do que comer e por fim morreu queimado no seu próprio erro. Corda bamba do circo que de um instante para o outro delimita quem vive e quem morre, sempre no último instante, e no silêncio do publico assustado padece a morte real do artista que não encontrará porto seguro para mais uma vez ser ovacionado pelas palmas da platéia.

Todavia deixemos essas vicissitudes de lado, o meu problema era muito maior; talvez não tão grande quanto o do engolidor de fogo, que não tem mais volta, todavia maior no sentido que também não tem solução. E então naquele momento comecei a viver essa história, que lhes escrevo agora e em verdade.

Continua...

Imagem de Marc Ferrez


A vida itinerante - Ensaio Circense

Independente apesar de interligado, igual a vida.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Terceira Parte – Apresento-lhes os Criminosos


Ensaio Circense- Doppelgänger

A vida itinerante

Terceira Parte – Apresento-lhes os Criminosos

O sol da manhã acariciava levemente a pele do meu rosto. O caminho do morro da “Vitória” até a lona era curto, entretanto o pouco que andei me fizera bem ao estomago que andava as voltas não lá muito satisfeito com a cena anterior do pobre rapaz. Visto de longe o circo parecia abandonado, porém conforme me aproximava percebia cada vez mais nitidamente que todos pareciam já estar de pé, cada um cumprindo a função que lhe cabia. Uma mulher barbada depenava uma galinha carijó, enquanto um enorme homem trazia varias toras de madeira cortadas em pequenos pedaços em cima do ombro esquerdo, pareciam ter a finalidade de alimentar o fogão, que por sinal já expelia uma fumaça revelando seu uso. O circo não possuía animais, a exceção é claro de alguns cachorros vira-latas que seguiam a cheiro bom do café da manhã, a principio já consumado. Já faziam cinco anos que os governantes do país haviam proibido a utilização de animais selvagens nas apresentações dos circos, os trailers onde obviamente ficavam os animais agora serviam para a armazenagem dos equipamentos. Estavam repletos de cordas, roldanas, varas, espadas e coisas do gênero. Conforme ia me aproximando mais atraia os olhares dos artistas, até que um deles me interpelou.
“Bom dia doutor” me disse um homem franzino de mais um metro e cinqüenta do qual eu não fazia a menor idéia da sua função dentro do circo. Respondi-lhe com educação e o perguntei se poderia falar com o representante do circo. “Olha doutor o representante do sindicato fica na capital do país, e quanto aos animais nos já mandamos todos para o zoológico. Até mesmo o Canastra, meu pequeno miquinho.”disse-me isso com um leve alagar de olhos e uma posterior coçada dos mesmos. Respondi-lhe que não vinha tratar desses assuntos, me identificando como policial da região pedi novamente para falar com um representante, mas preferi guardar a informação do assunto que pretendia tratar para quem sabe mais tarde pegar o criminoso de surpresa, se é mesmo possível que este tenha alguma ligação com o circo. O pequeno rapaz me indicou um trailer ao fundo, perto da entrada principal do circo. Era um trailer velho cuja tinta que lhe pintava as paredes externas estava descascando revelando por traz de si uma grossa camada de ferrugem. O nome do circo vinha estampado em vermelho sangue nas quatro partes, “Circo Bom Tempo”, e a porta que dava para o seu interior estava aberta. Bati na porta. Nada. Bati novamente. Nada. Entrei.
A cada passo que dava o piso do lugar gemia, era como se pisasse em um bicho morto que ainda não soubesse de sua morte. No fundo do compartimento havia outra porta, que parecia dar para uma outra saleta, da qual pude ouvir alguns barulhos. Bati palmas para tentar chamar a atenção de quem estivesse lá dentro. Ouvi mais alguns ruídos e finalmente o destrancar da porta. Um homem com o rosto avermelhado e de uma tez dura apesar de sedutora me perguntou quem eu era e o que desejava. Eu após me apresentar lhe revelei o que se tratava. Ele me mandando aguardar entrou novamente na saleta e falando alguma coisa para outra pessoa lá dentro saiu, fechando atrás de si a porta. Pediu que me sentasse. Após lhe mostrar as fotos, e dele reconhecer o rapaz, ele começou a me contar como e quando o rapaz foi admitido no circo, dentre outras histórias, que apesar de interessantes nada acrescentavam ao caso. O nome do rapaz era Philip, e era trapezista do circo fazia seis meses. Quando lhe perguntei se haveria alguém com motivos para matar o rapaz o dono do circo, de nome Charles, após uma breve tossida e uma ligeira olhada ao redor respondeu-me que não. Sabia que ele mentia. Após mais ou menos meia hora de conversa me despedi e pedi-lhe permissão para interrogar mais algumas pessoas, lhe dizendo que esta era apenas uma prática de rotina e que sabia que o assassino deveria de ser algum bandido pé-rapado da cidade. Ele sabia que eu mentia. Sai e entrevistei algumas pessoas.
Em resumo descobri que o rapaz substituiu um outro trapezista mais velho, e que formara dupla com a mulher desse trapezista. Após pagar umas cervejas para um grupo de palhaços, caras maquiados e muito engraçados, que se intitulavam “O grupo”, pude descobrir que esse trapezista mais velho possuía profundos ciúme e até mesmo ódio pelo rapaz. E quando os perguntei se todos sabiam disso, eles me responderam que sim. Então por que Charles me omitira essa informação? A resposta veio logo após a décima garrafa. O antigo trapezista era o irmão mais novo de Charles. A caso que parecia estar se resolvendo começou a se complicar no instante seguinte. Quando fui atrás do meu principal suspeito este havia ido a cidade havia alguns minutos comprar alguns suprimentos, e seu filho se encontrava no trailer. Parecia estar arrumando uma mala de viagem, no que o peguei de surpresa. Após me apresentar perguntei-lhe sobre seu pai e o que fizera na noite anterior. Ele me revelou que seu pai e ele haviam permanecido a noite toda ensaiando seu novo número. O garoto era palhaço do circo desde pequeno, e hoje se encontrava com dezoito anos. Antes que eu me despedisse, e confesso que estava um pouco frustrado com o recente complicar do caso, mostrei ao garoto as fotos do rapaz encontrado morto no morro da “Vitória”. Entretanto sua reação me surpreendeu, ele aos prantos se ajoelhou no chão e se pos a chorar. Após uns dez minutos ele parecendo estar recuperado me contou que os dois eram grandes amigos e que fazia já uma semana que não se encontrava com Philip, quando este lhe disse que iria dar uma pequena volta e não retornou. Quando lhe perguntei o por que dele não ter avisado a policia, ele me disse que Philip estava pensando em largar o circo e que imaginará que finalmente tive coragem em o fazê-lo, coisa que ele ainda não o tivera.
O caso que a principio se parecia com um breve devaneio de um grupo de jovens, mais tarde se tornara um simples crime passional e agora rumava em direção a um complexo assassinato, e eu não fazia a menor idéia de por onde começar.

Fim Capítulo Um

Imagem de Marc Ferrez

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Segunda Parte – Apresento-lhes o Crime


Ensaio Circense- Doppelgänger

A vida itinerante

Segunda Parte – Apresento-lhes o Crime

No dia anterior foi recebido pela polícia um telefonema anônimo relatando o aparecimento de um corpo de homem no morro da “Vitória”. A delegacia se encontrava as moscas, tal como em qualquer cidade pequena onde o policial espera a chamada em casa e não na delegacia de polícia. E era em casa, mais exatamente na minha cama, onde eu me encontrava. A madrugada gélida e o plantão extra da minha namorada, que trabalhava de enfermeira no pronto socorro da cidade, me obrigaram a me agasalhar bem aquela noite. E foi no meio de um lindo sonho de praias paradisíacas e mulheres deslumbrantes que eu fui acordado, “K. precisamos que você verifique um caso nas proximidades da ‘Vitória’”, só pude responder que sim, uma resposta que mais se assemelhava ao um grunhido, entretanto a DP há de entender. Quando me levantei um calafrio me percorreu a nuca até os calcanhares e me obrigou a permanecer um tempo mais aconchegado a minha cama; vencido o frio me arrumei e parti. No caminho me comuniquei com a central e pedi detalhes do ocorrido, nada me contaram que fosse realmente de alguma relevância ao caso. Só sabiam que estudantes, que não quiseram se identificar, disseram estar realizando um piquenique, leia fumando escondido dos pais, e viram um cachorro chafurdando no mato; a persistência do animal levou os jovens a verificarem o local. Lá chegando se depararam com uma mão em carne viva, o que deveria já ser obra do cão, parcialmente exposta da terra, aterrorizados fugiram e ligaram para a polícia. Era isso, uma mão, um cão e eu.

Não sei se vocês têm noção do que é procurar uma mão na escuridão de uma montanha de uma cidadezinha do interior com uma pequena lanterna. Bem, eu descobri. Quando já estava quase desistindo, após cansativos dez minutos de busca, no que deveriam ser quatro e quinze da manhã de sexta-feira, decidi acender um cigarro e me sentar em um tronco de árvore. A chama do meu isqueiro iluminou um pouco a escuridão, todavia o vento que não parava de correr àquela hora não que permitia acender o cigarro. Minha persistência era, entretanto, maior que a força do vento. Estava eu enganado. Após ter tentado acender meu cigarro atrás de quase todas as arvores do pequeno bosque que se situava no cume da montanha, e com o dia quase amanhecendo, estava cansado daquela aparvalhada brincadeira. Decidi voltar pra casa e relatar a central que não havia encontrado mão alguma. Dirigindo-me ao carro vi um pequeno roedor se entocar num buraco que navalhava uma árvore próxima, e com aquele pequeno ser vi novamente minha esperança de fumar um cigarro se acender. Ajoelhei na terra que aquela altura da madrugada estava um pouco umedecida e também em uma pedra que acabou por me ralar o joelho esquerdo. Com a mão parei para conferir a gravidade do arranhão e percebi possuir ela, a pedra, narina e boca. Dei um salto pra trás, no que devo ter me afastado uns dez metros do local, e um pouco assustado com a lanterna na mão regressei lentamente a árvore.

A pequena lanterna iluminava um circulo de pouco efeito na imensidão escura do morro. E no meio da escuridão eu encontrei, finalmente, a mão que apavorara os jovens e um pouco mais a frente o rosto que a pouco me apavorara. Sinalizei o local e andei até o carro para chamar o legista, que a essa hora também deveria estar dormindo. Acendi um sinalizador que se encontrava no banco de traz do carro e o coloquei perto do corpo, tanto para sinalizá-lo como também para lhe afastar os bichos que já lhe comiam a carne. Voltei para o carro e acendi um cigarro, no fim de seu ultimo sinal de vida adormeci. Quando acordei já estava de dia. Silva, o legista, me acordará se desculpando do atraso com um copo de café e me revelando as horas, eram oito. A exumação do corpo demorou uma meia hora, a catalogação dos pertences mais meia hora. Rapaz novo, fisionomia atlética e aparentemente morto a pauladas sem reação, a primeira pancada na nuca o derrubara, as demais o fizeram sangrar até a morte, um crime hediondo de um aspecto ruim de se ver e muito pior pelo fato de ter eu de ir atrás do criminoso. Uma coisa me intrigara acima de tudo. O fato de o rapaz segurar na mão esquerda um par de alianças de prata dentro de uma caixinha preta aveludada, e para um maior espanto meu e do Silva o fato da caixinha não estar suja de sangue. Como um sujeito morre a pancadas, sangrando até o fim sem sujar uma caixa que adormecera em sua mão? Com uma maquina Polaroid tirei algumas fotos do corpo, ou pelo menos das partes ainda factíveis de reconhecimento. Afastando-me um pouco do bosque observei a região e vi que o lugar mais próximo era um pequeno circo de lona remendada que se instalará a um mês na região, a pouco menos de um km do crime. Decidi começar por lá.


Continua...

Imagem de Marc Ferrez

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Primeira Parte – Apresento-lhes o Circo


Ensaio Circense- Doppelgänger

A vida itinerante

Primeira Parte – Apresento-lhes o Circo

Estava anoitecendo na cidadezinha de “Lugar Nenhum”, dentro da lona todos davam as mãos e rezavam para que tudo corresse bem naquela noite de apresentação. Naquele dia, enquanto rezavam não sabiam, e nem teriam como saber a tragédia que se precipitava sobre o circo. Talvez alguma entidade deseja-se avisá-los, pois naquela noite a chuva que caíra não poderia ser explicada nem pelo mais capacitado centro meteorológico. O dia fora bonito, o céu sem nuvens anunciava uma boa noite de apresentação. A necessidade de um dia claro e uma noite sem chuva nomeava o circo, circo Bom Tempo. O nome era mais uma grande ironia do apresentador e também dono de maior parte do circo, de nome Charles, já que a lona, de um vermelho sangue com listras amarelas nos tempos áureos, hoje se encontrava mais para uma peneira do que para uma lona, nem mais os remendos lhe eram possíveis de arrumar. Nas noites de chuva todos dizem que Charles, logo após cancelar as apresentações ficava em seu trailer, abria uma garrafa de uma cachaça bem vagabunda e chorava, chorava copiosamente. Os mais íntimos dizem que chorava por lembrar dos seus tempos áureos, tempos em que as pessoas gostavam de ir ao circo, gostavam da magia do circo, da alegria do palhaço, da ilusão do mágico, das piruetas dos equilibristas e do desafio a gravidade do malabarista. Hoje a tevê parece bastar para apresentar tudo isso.

Charles idealizara o circo já havia dez anos, antes chamara-o de Frissom e agora passou a Bom Tempo. Ele e o irmão venderam todos os bens da antiga família de comerciantes e caíram na estrada. Desde sempre Charles cuidou das finanças e da apresentação dos espetáculos. Já seu irmão, Pietro, que desde cedo havia entrado para escola de circo, era junto com a esposa a dupla de trapezista, e seu filho que na época tinha apenas 7 anos já começava a dar os primeiros passos no picadeiro como o palhaço bolinha. Conforme rodavam o país agregavam cada vez mais artistas, entretanto de uns três anos pra cá o que mais faziam os artistas eram sair do circo em vez de entrarem, nem mais as crianças antes tão animadas, aponto de ate fugirem de casa, iam mais ao circo, sequer para assisti-lo, quanto mais para dele participar. Os demais artistas não eram da família, ou pelo menos, não de sangue, apenas de circo. Todos possuíam uma história de superação, com pitadas de magia e um odor de fantasia. Entretanto não posso contar-lhes a história de cada um desses, nem se as soubesse, essa não é a razão pela qual estou aqui.

Chamo-me K., sou policial e estou investigando um crime ocorrido nas proximidades de onde está instalado o circo. Como disse, a chuva parecia que não iría ceder, mais nesse dia, mesmo com ela, como que em uma homenagem de luto aos recentes acontecimentos o espetáculo prosseguiu. E eu da arquibancada, de metal armado como um quebra cabeça infantil, observava o picadeiro. Nele os suspeitos, que até então não se sabiam como tais, se apresentavam a mim como em uma ópera dramática ao som de Beethoven. Passavam de um lado ao outro, ora suspensos no céu, ora em bocas de feras, ora mascarados de palhaços. As gotas que escorriam da lona até o chão de terra batida onde formavam poças enlameadas, quando caiam a luz dos refletores pareciam flocos de neve esbranquiçados cujo som eu sabia não poder escutar, apenas imaginava, tal como também imaginava quem poderia ter cometido o crime que me trazia aquela noite aquele espetáculo. Um crime tão bárbaro e no dia seguinte se apresentar sorrindo, como me era estranha aquela cena. Fiquei pensando, se eles soubessem que a polícia desconfia de um deles e não de um estranho do qual nunca tenham ouvido falar, será que mesmo assim estariam ali? Sei que o assassino estava ali, não em homenagem mais em comemoração a ilusão de nunca ser pego. Ao menos era o que essa pessoa pensava.

Continua...

Imagem de Marc Ferrez