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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Estátua



Voltei. Quanto tempo foi? Quanta coisa mudou? Quem será que sentiu falta?

Foram oitenta e nove dias. Muita coisa mudou, novamente expulsei aquilo que não queria e mais uma vez só eu me encontro neste blog. Li Nelson Rodrigues, muita coisa mudou, muita coisa muda. Só os reclamões sentem falta. Aqueles que mal me viram chegar já me apontam o dedo com suas perguntas e seus medos, o mais puro temor.

Eu me fui porque os temia, agora já não temo mais. Tenho tanta coisa pra temer não vou temer dedos que me apontam feridas que eu já conheço, afinal são minhas. Que se fodam os moralistas, que se foda a moral dos dedos. Apontem para o cu que lhes é mais familiar e de preferência para os seus próprios cus.

É, Nelson influência. Espero não cercear também. Ir além. Mas não quero mais ir a lugar nenhum. Isso também mudou. Começo a ficar satisfeito somente pelo fato de existir. Piegas? Que seja, e vocês ai apontem o dedo para outro a partir de hoje.

***

O vinho entrando e o sangue saindo. Seria uma boa forma de morrer pensou ele. Parece uma bonita forma de se morrer, morrer sozinho em uma cadeira com um mar de sangue no chão e um gosto de vinho na boca. Cartola toca ao fundo na vitrola antiga de seu avô. A poesia não lhe agrada, parece-lhe morta, um pouco lenta demais pra tudo que quer dizer e sentir. A prosa lhe agrada muito mais.

Alegria; era o que faltava em mim; uma esperança...

A! Cartola.

Viver é tão bom a beira de morrer, a beira da loucura, a! que prazer em viver. Queria virar pedra. Pensou, que assim que a ultima gota saísse se imortalizaria em pedra. A pedra não sangra.

Solido, como a mão do amante na carne nua, que a desfigura na impulsão de sua pegada. Ainda tinha o cheiro do sexo dela entre os dedos. Amora, cheirava a amora.

Pedra, viraria pedra cheirando a amora.

Imagem de Sir Lawrence Alma-Tadema
Música Like A Star - Corinne Bailey Rae

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Bebedeira



Minha cabeça girava naquele dia, ou melhor, naquela noite. Meu estomago doía e se nauseava, minha vontade era deitar e ficar em qualquer lugar entre o bar e minha casa, não importava. O bar já estava fechado e meus pés doíam o suficiente para me fazerem sentar. É engraçado, pelo menos para mim, pensar na possibilidade de que meus pés tenham ordenado algo. Mas foi como se mandassem em mim. Sentado afrouxei os cadarços do meu tênis. Que palavra feia, cadarços, apaguem-na, eram barbantes, em meu allstar haviam barbantes. Sabem como são metidos a modernos diferentes esses adolescentes, pois bem eu me enquadrava entre eles.

Além dos tênis quadriculados amarrados com barbantes, estava eu sentado na sarjeta sem meias com uma calça listrada uma cueca furada e uma camisa do Mussum, isso mesmo o grande Mussum. Uns taxistas me enchiam o saco para ir com cada um deles, depois que disse não ter nenhum dinheiro me deixaram em paz. A rua começava a ficar deserta, meus amigos que moravam longe dali já haviam ido todos embora. Eu, bêbado, me esquecera de pedir a eles o dinheiro da passagem. Logo tive de parar de enrolar e começar a andar.

Com os pés ainda doendo tirei o tênis e com os barbantes amarrados um no outro os pendurei no ombro e comecei a andar. Do bolso esquerdo da calça tirei um cigarro, aproveitando para contá-los, eram quatro, agora três. Acendi, e recomecei a andar. O caminho era escuro porém muito tranqüilo, acho até que posso dizer que qualquer caminho deserto é de certa forma tranqüilo. Comecei a pensar, se não passa ninguém aqui, ninguém também ficaria aqui para assaltar alguém, afinal quem quer assaltar precisa de alguém para ser assaltado. Mas tranqüilo dei a ultima tragada no cigarro e o joguei em uma poça de esgoto próxima. O barulho que fazia me fascinava. Não sei onde li alguém que pensava de forma semelhante. Se não me engano foi em uma noite dessas em que fazia o mesmo trajeto, e conversava com as mesmas pessoas, eu.

Meu momento de tranqüilidade tinha de ser interrompido em algum momento, e foi. Antes que pensem em assalto, batida de carro, gangues de rua, adianto que não foi nada disso. E digo que era uma revolta, estava no meio de uma revolução. Tudo girava, o silêncio começava a fazer barulho, meu estomago dominara o meu corpo. Meus joelhos não quiseram se dobrar perante o novo senhor, mas a cabeça sim, e na mesma velocidade em que ela se dobrava de dentro de mim saião os escombros da revolução. Apresados em sair do que antes fora seu pais corriam por entre minha boca e meu nariz. Até dos meus olhos escorreram mesmo que diferentes dos demais, talvez fosse a realeza do que antes tinha sido o seu império.

O dia amanhecia e eu fumava meu ante penúltimo cigarro, na esperança de tirar da minha boca os restos de uma noite de luta. Ah o sabor da derrota, como é asqueroso. Ao menos me sentia melhor, no mínimo o novo governo instituído deve ter proposto melhorias, porém estas só devem durar até a próxima sexta-feira, até lá aproveito a calmaria. As pessoas passam por mim como passam por um nada, um nada que pode feri-las é verdade, vejo isso em seus olhos, mas ainda assim um nada. Chego em casa e a própria casa já vive. Na intenção de matá-la fecho as cortinas e deito na cama. O dia vai me perdoar, mas hoje nem sei se vou dar o ar de minha graça à tarde, quanto mais ao dia.

Imagem de Guido Reni

domingo, 26 de outubro de 2008

Coração Partido


Pequeno, muito pequeno. O homem nunca será grande o suficiente a ponto de não temer a si mesmo.

Vou ficar aqui. Parado. No escuro. Não quero me ver e nem que ninguém me veja. Em silencio posso ouvir as batidas secas do meu coração. Sentado no canto começo a chorar, só que eu não quero. Não quero mais. Grito, minha cara se deforma, o grito ecoa em minha cabeça. Ponho as mãos nela enquanto puxo meus cabelos. Com o rosto molhado, boca aberta, mãos na cabeça, grito, entretanto não sai nenhuma palavra da minha boca, na verdade a única coisa que realmente expresso é um leve ganido que mais se assemelha a um suspiro. Nesse instante sinto como se meu peito fosse explodir e com ele todo o meu corpo. Mas não é isso que acontece. A pressão que sentia no meu corpo na verdade era o meu coração que escalava meu peito para ver o que estava acontecendo do lado de fora.
Ele sai pela minha boca e me olha, como estou em um canto escuro não me vê. Corre esbarrando nos moveis. Procura o interruptor. Sabe que do lado da porta tem um, e sabe também que é muito pequeno pra alcançá-lo. Vai tateando pelo cômodo, que não é muito grande, até achar uma cadeira. Com toda força, ele, tão pequenino, empurra a cadeira até a porta. Coitado, ainda na esperança de me encontrar se estica todo, e com a ponta do dedo com o corpo totalmente esticado se aproxima do interruptor. Entretanto recua ao ouvir o barulho de chave na porta. Tenta descer do banco antes que a porta o derrube. A porta se abre, ele se joga na esperança de se salvar, porém o banco sucede por se fazer cair com peso encima do seu frágil corpo.


Você entra e acende a luz. Avista-me no canto, aos prantos. Preocupada arregala os olhos e me pergunta o que ouve. Eu, com os olhos vermelhos e quase sem lagrimas olho no fundo dos seus e sem dizer nada te dou um tiro na cabeça. Eu ainda te amava e não queria que você sofresse. Eu, eu não, eu vou sofrer por que amo a ti e ao mundo inteiro.

Imagem de Rafael Sanzio

domingo, 19 de outubro de 2008

Telefonema


Sozinho.

Trim...Trim...Trim...

É o mundo que me chama. Não vou atender.

A secretaria-eletrônica liga, Você ligou para o numero 27242020 no momento não posso atendê-lo deixe o seu recado após o bip ou tente mais tarde.

E lá vem o bip.

Mais a voz não prossegue. Parece estar no silencio a espreita de uma resposta, ou quem sabe esteja ainda aproveitando a curta frase onde por poucos segundos fantasiara minha imagem. Travesti da memória, imagem que lembra. Pura imagem, mas com realidade própria. A imagem que lembra travestindo não é a mesma que simplesmente lembra. Diferentemente da segunda a primeira fantasia, cria. Dela surgem cheiros sons materialidade, tão reais quanto a realidade, tão reais que quando você para de lembrar simplesmente parece ter ocorrido, não apenas pra você mais para todos. Na segunda a imagem nos vem simplesmente como uma fotografia, como o numero decorado do celular ou da formula química da prova de amanhã.

Ela não me lembrava, me travestia, me tirava a força da minha ilha sem que de lá eu tenha saído. E de posse da minha imagem me fazia e refazia a seu querer, aos seus desejos. Dez minutos depois um suspiro e o telefone no gancho. A ligação terminara. Mais eu, para ela, já era indiferente naquele relacionamento, ela tinha de mim uma imagem, com cheiros, sons, e materialidade, eu era apenas um problema, eu era apenas uma pedra da qual ela tinha que se livrar. Por que se o leitor acha que travestir a imagem de uma pessoa é algo triste, enganasse. É o que todos fazemos quando pensamos realmente conhecer uma pessoa, ou quando achamos que mais do que ninguém, mais do que ela mesma temos o direito, este de qualquer espécie, sobre aquela pessoa.

Porém, o problema mais serio desse travestimento é a própria pessoa que foi fôrma para a imagem, porque só esta pode frente a sua imagem travestida se despir. A imagem que se despe se torna nada, ela só é em quanto imagem. A pessoa que se despe, muda frente ao outro e isso incomoda profundamente o artesão, que com tanto carinho tinha, por si só, cultivado aquele fantasma.

Sozinho.

Trim...Trim...Trim...

É o mundo que me chama, pela quinta vez.

-Alo...

-...

-Alo...

-Oi...

-O que você quer, por que tanto liga...

-Eu te amo...

-Eu não te amo e nunca te amei, entenda isso e me respeite. Destrua tudo o que construiu sobre mim e refaça seu edifício, se mesmo assim ainda gostar de mim me respeite. É o mínimo que pode fazer, pare de colocar a sua vontade acima da minha e me respeite.

-Tum...Tum...Tum...

No dia seguinte.

Trim...Trim...Trim...

Jamais entenderei as pessoas.


Imagem da Escola do Realismo Socialista

domingo, 12 de outubro de 2008

Vazio


(...)

(...)

Nem tudo que digo falo por palavras.

Cada segundo, cada instante, sempre novo, nunca o mesmo. Me peça coisas plausíveis. Não me insira nos comuns. Sua intensidade me sufoca. Nunca imaginei que gostaria tanto de ser sufocado. Durma comigo uma vez na sua vida. Pois saberá que o que vê durante o dia não muda com as estações. Quando chorar me diga, pois não quero que chores. Si choras por mim, não me desejes mais. O tempo passa. As palavras não fazem mais sentido algum. Não expressão mais o que eu sinto. Me abrace, se sufoque. Se não sabe o que eu sinto é porque nem mais meus atos fazem sentido. Mais isso, isso, isso, i...s...s...o eu não posso aceitar.

Silencio
Olhar
Lagrima
Dor

Ilha minha, só minha. Só nela minhas palavras vão sempre fazer sentido. Pois nela, na minha ilha, só eu é que sinto.

Confia.
Pode confiar naquilo que não vê? Pode confiar no oposto do que sentes? Acho que não. Mais não tenho a resposta definitiva.

__________________________________________

Chegou em casa. Tirou as chaves do bolso. Abriu a porta que rangia. Pegou o telefone e ligou.
Com a roupa que ainda fedia a cigarro sentada na cama não pode entender como confiar tanto em si e duvida daquele que lhe dava sentido. Desligou o telefone. Ninguém lhe atendia. Em casa era pura duvida. Antes, quando ainda na rua, pura certeza. Mais uma vez pegou o telefone. Nada. Três. Quatro. Cinco.

Maria -Alo!
Antonio -Oi, tudo bem.
Maria -Não.
Antonio -Porque?
Maria -Porque você não atendeu.
Antonio -Desculpa eu não havia sentido o celular vibrando.
Maria -Porque você não me atendeu?
Antonio -Porque eu não ouvi o celular tocando.
Maria -Estava preocupada, porque não me atendeu?
Antonio -Simplesmente não tinha visto.
Maria -Estou chateada com você.
Antonio -Eu sei.
Maria -Sabe porque?
Antonio -Sim.
Maria -Porque?
Antonio -Porque me ama.

Em silencio Maria sorriu. Aquilo por alguns segundos respondeu todas as suas duvidas, todas as suas aflições. Afinal ele poderia não ter escutado o telefone, só isso.

Antonio –E tem mais.
Maria –Tem?
Antonio –Eu também te amo.
Maria –Boa noite.
Antonio –Boa noite.

Dormiu tranqüila, serena como a noite enluarada que Antonio via da rua.

__________________________________________

Até quando as palavras vão ser tão vazias? Ou será que vazias são as pessoas que as escutam? Acho que não. Mais não tenho a resposta definitiva.

Vazio.
Cheio.

Imagem de Alma-Tadema, Sir Lawrence

domingo, 5 de outubro de 2008

Desejo


- É bom ver você aqui...

- Eu não preciso de você...

- Mas eu preciso de você...

- Não me importo...

- É isso, só isso? Assim que termina...?

- Sim.

A porta se fecha. Num movimento seco, porém contido, Maria se vira e vai embora. Do outro lado da porta Matheus desaba. Senta e chora. Um choro incontrolável, inexplicável, inexperiente. Duas semanas depois...

- Oi...

- Oi...

(Silêncio)

- Eu preciso de você...

- Não quero saber...

Do outro lado da linha Maria bate o telefone. Com o telefone ainda na mão Matheus desaba. Senta e chora. Um choro incontrolável, inexplicável, entretanto já experiente. Duas semanas depois...

- É bom ver você aqui...

- Eu não preciso de você...

- Mas eu preciso de você...

- Não me importo...

- É isso, só isso? Assim que termina...?

- Sim.

A porta se fecha. Num movimento seco, porém contido, Matheus se vira e vai embora. Do outro lado da porta Maria desaba. Senta e chora. Um choro incontrolável, inexplicável, inexperiente. Duas semanas depois...

- Oi...

- Oi...

(Silêncio)

- Eu preciso de você...

- Não quero saber...

Do outro lado da linha Matheus bate o telefone. Com o telefone ainda na mão Maria desaba. Senta e chora. Um choro incontrolável, inexplicável, entretanto já experiente. Duas semanas depois...

_____________________________________________

O desejo incontrolável de se estar com alguém só surge na perda da necessidade desse alguém de estar contigo. Nessa linha amigável apuramos nossos sentidos em busca de desilusões que nos apreendam na falta que o outro faz dentro de nós. O outro, parte de nós, tão seu, na distancia perfeita do não precisar de mim.

_____________________________________________

- Saia.

- Porque?

- Porque hoje preciso de você...

- E eu de você...

Fizeram sexo por duas semanas, nunca tão próximos, nunca tão distantes.

Cada gozo um minuto,

de pura intensidade,

de pura necessidade,

de saber que não precisão,

ao mesmo tempo,

um do outro

e mesmo assim se desejam.


Imagem de Balthus

domingo, 28 de setembro de 2008

Direito a Existência

Levantou-se. Com os olhos ainda marejados andou até o banheiro. Jogou um pouco de água no rosto; se olhou no espelho. Sua cara ainda amassada da tarde bem dormida que levara refletia na imagem que via diante de si. Ajeitou-se, escovou sua mandíbula, colocou suas lentes de contacto. Não se considerava feio, mais sabia que naquele quarteirão existiam muitos outros bem mais atraentes que ele. De qualquer forma essa noite arrumaria uma parceira. Já estava na hora de apresentar alguém a família. Fazia oito meses que não se aproximava de uma fêmea, e isso era quase uma vida para ele. Não tinha tempo a perder. Os mais jovens da região se reuniriam hoje numa espécie de praça de alimentação, ele, que como eu disse não era feio; via nessa reunião a grande chance de falar com Vânia. Sua vizinha, que nas horas vagas era a paixão da sua vida.
Depois de uma hora se arrumando, totalmente preparado, lembrou-se que não havia passado no banco no dia anterior. Sabia que isso significava pedir dinheiro pros seus pais, o que significava aborrecimento, o que significava que preferia ficar em casa. Entretanto, ao se sentar na cama e abrir a carteira, viu a foto de Vânia, o que fez com que ele, novamente afoito, se penalizasse perante seus pais e fosse lhes pedir o dinheiro. Como previu, se aborreceu. Porém, olhou novamente para a foto dentro da carteira e novamente se empolgou em sair. A noite já se arrefecia, no chão a lua brilhava cheia, de cima do céu por entre a janela. Ele nunca passara pela porta. Sempre vivera dentro da casa, entre paredes.
Nunca falara a ninguém, mais seu grande sonho sempre foi tocar o chão de terra batida, por entre a grama úmida, depois do sereno da noite, ao amanhecer. Que idiota era ele com seus tolos sonhos. Em pensar que um dia aquele que nasceu pra viver no lixo vai subir a majestade. Que idiota era ele com seus tolos sonhos. Seu pensamento foi subitamente interrompido por um grito. Passado o espanto reconheceu Max que o chamava já havia algum tempo. Se despediu de seus pais e saiu. Tinha uma grande noite de conquistas pela frente. Ele até pensou, quem sabe, se seu sonhos não fossem tão solitários talvez não fossem tão tolos. Quem saberia o que Vânia pensava deles. Abriu um sorriso no rosto ao pensar na hipótese de que Vânia poderia acompanhá-lo em seus devaneios. E quando interpelado por Max do porque sorria este mesmo lhe respondeu, “Vânia”. Um pouco encabulado concordou com a cabeça. Foram andando até o ponto de encontro, que não era muito longe de onde moravam.


No caminho, o pior aconteceu. De um momento a outro, a escuridão virou luz, o silencio grito, a felicidade desespero, a lentidão correria. A luz se acendera, uma mulher gritava enquanto corria para o armário em busca de alguma coisa. Ele e mais três amigos, contando Max, não sabiam o que fazer, não sabiam o que gritava a mulher. Simplesmente pararam. A mulher diminuiu os gritos há chegada de um homem que rapidamente desapareceu, retornando em seguida com um chinelo na mão. Eles, ainda parados, sabiam o que estava prestes a acontecer. Mas não sabiam o porque. Estavam parados, quase fora da vista daqueles dois, mais eles pareciam não poder deixá-los. Aqueles dois em pé, por sua vez os perseguiam, como monstros que não merecem, ou não possuem, o valor da existência.


Minha narração poderia continuar em Max que morreria dali a duas horas, vale ressaltar que são duas horas de pura agonia, provocada por uma grande dose de veneno no corpo. Entretanto prefiro me encerrar com ele, que de um golpe teve todo seu corpo esmagado. Erguido, com uma total alienação quanto a nobreza de sua existência, relacionado a um asco que escorria pelo chinelo foi lentamente esfregado nas bordas da lata de lixo sem o menor pudor, sem a menor cerimônia. Quanto a dignidade que seus sonhos lhe patenteavam aquele ser que lhe privara da vida parecia ignorá-los.


E para que vocês não se esqueçam que ele realmente existiu digo-lhes seu nome. Morreu hoje, Adrian Troccoli, uma barata também.


Que idiota era ele com seus tolos sonhos.

Imagem de Caravaggio

domingo, 7 de setembro de 2008

Árvore da Vida


Procuro um livro. É um livro específico e bem difícil de se encontrar. Não sei se o é difícil de se encontrar porque o procuro, ou se o procuro porque é difícil de se encontrar. Afinal se não fosse difícil de se encontrar já o teria encontrado, logo já não mais o procuraria. Se o procurasse porque é difícil de se encontrar eu teria assim a probabilidade de jamais o encontrar, exatamente por ser difícil.
Assim percorro as livrarias do centro da cidade. Com o Sol na minha nuca e um peso em minhas costas. Minha busca é dispersa. Assim é, pra que eu não me enlouqueça, buscas secundarias aliviam a pressão da principal.
Vejo a vida dessa maneira. Busca infinita de significados, enraizadas por buscas secundarias de significantes. Que ciclo vicioso é a arvore da vida. Mesmo assim tão diversa, tão ambígua, contradições que não se contradizem, signos que nada representam. O fim de sua existência não se dá, não existe. Pois ela nunca o realizará. Quando morrer, e será breve, da morte nada levará, da mesma forma de que nada levou do seu nascimento.
No centro da cidade finalmente o encontro. O vejo de longe, lá está ele. O livro que tanto procurei, o tronco da minha árvore. Aperto o passo, tão firme e seguro quanto o do ônibus que vem em minha direção. Ouço a sua buzina, os pneus travando seus gomos no chão cantão e deixam suas marcas, como garras no asfalto.
Minha existência termina. Independentemente da realização ou não do meu encontro. Sou perfeito. Sou tudo o que podia ser. Não sou mais nem menos, sou perfeito, tal como uma pérola que se molda no ventre de uma ostra na mais imensa escuridão da qual pudesse ela lá moldar.
Sou finalmente tudo...

Imagem de William-Adolphe Bouguereau

domingo, 8 de junho de 2008

Homem na rua


Não há melhor Academia que a vida, e também, por mais incoerente que possa parecer, não há pior. Encontrando com um homem na rua, não sei seu nome, e não saberia definir seu rosto, se tentasse, me limitaria a dizer que era sujo. Ele me disse palavras sabias das quais mal pude escutar. O abacaxi se não fosse gelado seria como água e o cachorro quente se não fosse quente seria como mato. Logo depois o mandaram pastar. Não sei se tem algum sentido, entretanto com certeza tem um significado, mesmo que esguio. O que faz sentido não são as palavras mais sim os significado que fazemos delas. O que são palavras de um idioma desconhecido, não deixam de ser palavras, isto é indubitável, porém não fazem sentido algum se delas não tiramos significados. Fico me perguntando, que significados tinham as palavras daquele homem. Será que aquele homem morrerá hoje? Será que alguém irá compreender algo do que ele disse? Será que eu morrerei hoje? Será que alguém compreenderá algo que eu disse?

Poeira dos tempos dentro de minhas narinas. Minhas excreções comportam o tempo que já vivi. O amarelamento dos meus dentes denunciam a idade da minha vinda, e prenuncia a idade a minha ida, mas jamais pronunciarão a idade da minha volta. Excreções de um amor não correspondido saem virulentas como vermes do meu corpo. A beleza da vida esta na flor que sobrepõem nossas covas. A escuridão de sentimentos nunca escurecerão a beleza dos mesmos sentimentos vistos de um outro angulo. Fim e começo, começo e fim. Entendam que só o meio podemos perceber, o resto é pura suposição.

Oi, como vai?

Eu vou bem, e você?

A mais ou menos, sabe como é.

Não, não sei, mas acho que estou prestes a descobrir.

Profundidade. Profundeza. Ser humano.


Imagem de Hieronymus Bosch

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Sentimentos de Minha Condição


A! mais que ódio. Ódio de ser humano. Ódio de lidar com seres humanos. Não sei o que dizer. Estou aflito e, pior do que isso, tenho medo de ser naturalmente aflito. Amo não nego. Amam-me, entretanto isso independe da minha vontade. Não quero amar e nem ser amado. Amar implica em algum momento sofrer, pois só amando diria que gosto, assim sofrendo descubro que gosto mais do que deveria. Nenhuma pessoa jamais me pertenceu, por mais que se amarre aos meus braços serão apenas braços que terá. Porém como é bom ter alguém pra chamar de meu. Mas não posso ter, pois tendo daria a brecha de me terem e eu não quero ser de ninguém, quero ser do mundo, mundo frio e solitário. Não queria que você me amasse, mas você me ama, não queria te amar e por isso não te amo, a! se isso fosse verdade, as coisas seriam bem mais simples. A verdade é que tenho medo, medo que por não te chamar de minha te perca para o mundo, tenho tanto a te oferecer e acho que você a mim o mesmo, talvez até mais. A! egoísta que sou, ser vil e vulgar, imagino os outros não sendo merecedores de seu perfume, de sua boca e de seu corpo, seria eu pretensioso o suficiente para achar que uma pessoa se basta em outra? Seria essa a definição do ciúme, a pessoa querer que a outra se baste nela?

A! o ciúme veneno maldito que em poucas doses nos põem no mais divino sonho de realização e que em altas doses nos remete as mais tristes formas de depressão. Maçã maldita e dentre as frutas a mais doce. A verdade é que não quero mais ver verdades, não preciso delas, elas não me bastam, me ferem. Minta para mim, diga-me que somos muitos e que você é só uma e é só minha, minta-me, invente-me, não me peças verdades, pois não as possuo, e mesmo que as possui se continuaria negando que as tenho. As verdades me empoem medo, nelas vejo-me por inteiro, enquanto que nas mentiras me fantasio de pierrô e minha mascara procura a columbina, quando não mais a quiser não preciso lhe dizer, apenas troco-me a mascara e ela própria perceberá que mudei.

Desculpe-me se lhe sorrio, mais lhe ver é uma das melhores sensações do mundo, e dela vou sorrir sempre. Todavia um dia se não mais lhe sorrir saiba que não foi você quem mudou, mais sim eu que me mascaro de outra forma. Beijar-lhe a boca, beijaria, fazer-lhe carinho, eu faria, amar-lhe o mais intensamente enquanto juntos, amaria. Talvez esse seja o meu erro, dar me por inteiro, talvez se me guardasse não me apaixonasse, não apaixonaria. Mas o que sou em partes, ou melhor, o que sou eu por inteiro? Se em algum momento fui por inteiro mostrem-me e lhes direis que aquilo não era eu senão confuso de mim mesmo.

Raiva, ódio, rancor e até quem sabe magoa, lindos sentimentos de minha condição humana, sentimentos que provam que eu, e também você, existimos. Um dia estava eu com outro eu quando lhe perguntei -Será que estou eu fadado a magoar e magoar-me?, e ele me respondeu que “eu ainda não magoei a metade das pessoas que ainda vou magoar”, a! dor suprema que se abate em meu peito, arranca-me o coração mas não me deixe assim viver. Estas foram as últimas palavras que o eu perguntante me falou, depois só silêncio. Tum tum, tum tum, maldito, por que não se calas, já não se apercebera que não falo mais contigo, não quero assunto, morreras pra mim. Maldito dia que larguei a estação, devia ter lá permanecido. Lá é o meu lugar.

Imagem de Balthus

domingo, 1 de junho de 2008

O silencio audível


31/09/07 – 24:04 ou 00:04

Será que me tornei um ser noturno, será possível a um homem tornar-se noturno? Demoro-me horas a pegar no sono, em principio pensei que fosse de outro hábito, que detesto, entretanto como hábito não consigo largar, que é o acordar demasiadamente tarde, contudo mesmo acordando cedo e só me pondo a dormir a noite não consigo por vezes adormecer. E o que mais me incomoda não é o fato de não conseguir dormir.

(Aqui abro um parênteses emergencial, por que temos que viver entre vizinhos, não ligo, de forma abrangente para convivência com pessoas, mas sim com vizinhos. O que me foi delegado pelo destino, por exemplo, deu-se agora a aderir a juventude saúde e fica até altas horas da noite a pular corda no estacionamento do prédio, o que de dia pouco me incomodaria, entretanto no mar de silencio que é a noite, o estalar que a corda faz ao entrar em atrito com o chão acontece de tal maneira, em um tal estrondo, que faz até a mais paciente das criaturas perder seu tino social. Fecho aqui o parênteses.)

Assim, voltemos. Não sendo o fato de não conseguir dormir, isto também me incomoda, mas não é o principal motivo. O principal motivo é o pulular de idéias que parecem esperar que recoste eu a cabeça no travesseiro para só então começarem a saltar, tal como crianças naquele brinquedo pula-pula em uma festa de aniversario sem adultos, logo, até racharem suas cabeças mutuamente.

Tenho idéias do que vou fazer amanhã e do que vou fazer pelo resto da minha vida, faço planos e o principal os realizo mentalmente...

(e a corda não para)

...porém não tenho a necessidade de sonhar, eu os vejo e principalmente eu os sinto...

(se ainda fossem continuas as porradas, porém sua falta de preparo o obriga a parar a cada mais ou menos vinte saltos)

...e o fato de os senti-los me desperta. Lembro-me de fatos que me aconteceram e de fatos que eu queria que tivessem acontecido. Pego de um copo de vinho.

(Acho que a corda cessou. Vinho santo.)

Um dia me perguntaram se eu era capaz de ouvir o silencio, de prontidão respondi que sim, grande erro, entretanto a pergunta não teve uma continuidade, uma grande pena. Tendo minha resposta em mente venho aqui reformulá-la, sem porém contrariá-la. Possuímos cinco sentidos, talvez mais, fiquemos aqui com os cinco, um deles é a audição. Captamos através dela os sons produzidos por objetos ou por nos mesmos. Não faço aqui um parênteses por medo que acorda volte, contudo peço ao leitor que o imagine, aqui fica a pergunta, porque a porcaria do equilíbrio se encontra no ouvido?, quando estavam montando o corpo humano esta devia ser uma daquelas peças que cismam em sobrar quando agente monta qualquer coisa e assim a puseram em qualquer orifício, pensando bem, que bom que foi nos ouvidos.

Voltando a nossa questão, a audição humana não é das melhores, sendo assim, deixa de captar muito dos sons captados por outros animais e mesmo outros aparelhos. Quando falarmos que escutamos algo é porque este nos chegou aos ouvidos, porém não é apenas assim que escutamos, já que quando nada escutamos ainda assim escutamos, mesmo que seja a ausência de som. A princípio parece incoerente, mas não é, utilizarei um exemplo muito simples, o de um surdo, este jamais saberia se um lugar está ou não em silencio visto que não escuta e quando digo isso falo de que este não possui qualquer experiência com o som. Portanto só podemos perceber o silêncio através de sua não audição o que não significa que não o escutamos e sim que escutamos a sua ausência, o que não deixa de ser uma forma de ouvir.

Para utilizar-me deste exemplo é necessário que o surdo não possua qualquer percepção do som, pois, da mesma forma que os outros quatros sentidos, quando deles já possuímos idéias formadas estas nos ocupam o espaço que foi deixado pela lacuna do sentido perdido, porém quando nunca a possuímos esta jamais poderá ser associada a algo sentido partindo de uma pura idealização imagética.

Acho que vou dormir, o vinho faz efeito, entretanto se não conseguir volto pra terminar o assunto.

Imagem de Xu Beihong

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Declaração de Desamor


Falaram-me que você rasgou minhas cartas e meus poemas, porque? Acha que aquelas palavras não foram verdadeiras? Eu sempre te falei, e continuo a falar, que nós sempre teremos um ao outro, e isso não deixa de ser verdade mesmo que você não acredite. Eu não entendo onde você quer chegar com as suas atitudes, você parece não se decidir quanto a nada, porém chegamos em um ponto onde eu decidi, e onde uma decisão sua não mudará nada. Não que você não tenha poder ou vontade para isso, mas o fato é que não esta mais em suas mãos a decisão, apenas isto. Entendo que você esteja chateada, eu também estou, mas nada do que você tem feito tem facilitado para nenhum de nós, você mistura horas de lucidez com horas de loucura, eu não posso te dar carinho se você me pede intimidade, eu não posso te dar amizade se você me pede presença, eu não posso te dar confiança se você me furta beijos, eu não posso te dar companhia se você me impõem limites, eu lhe peço tempo não dias.
Não quero que você se guarde, não quero que você não ame e nem seja amada, mas hoje eu não posso mais te ter. Já discutimos as razões. E lá vem você de novo, com inverdade, neuroses que só me afastam mais. Às vezes me paro pensando quanto sofrimento eu tenho causado e sofrido, poderia enumerar as coisas que tenho passado, entretanto não acho nem um pouco necessário, como você também poderia o fazer, mas não o faz. E então, qual é a solução? “Quem dera eu tivesse a resposta, porém não tenho”. E então, ficamos na mesma? “Não, não quero e não posso, meu corpo já não agüenta mais, e não creio que o seu também agüente”.
Mas ai esta a questão, como se diz adeus à pessoa que se ama? Não se diz, chora-se, é algo que não pode ser expresso por palavras, apenas por lagrimas, e dessas lagrimas fazemos um rio, que leva nossos sentimentos em deságüe ao mar, para que nele, no mar de nossas vidas, se misture e vire apenas uma historia, dentre muitas que carregamos em nosso passado, porém da qual as pedras de nosso rio jamais se esquecerão.
Imagem de Gustave Courbet

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Ser Humano


Cego. Não. Surdo. Não. Mudo. Não. Insípido. Não. Insensível. Não.

Só estou, só ficarei. Relações humanas não mais enobrecem meu ser. Mas que relação não é humana. Até sozinho comigo mesmo estou me relacionando com um humano. Animal cruel, vil e sem razão alguma, ou pleno dela por inteiro. Nas atitudes mais cruéis dos homens mais vis e que consigo enxergar a verdadeira natureza humana. Coitado de mim, que não consigo ver mais nos homens qualidades, atos nobres, boas ações, nem mesmo em mim. Pessimista, eu? Nem um pouco. Realista, talvez. Porém o mais certo seria dizer sincero, apenas isso. E sincero não significa ser verdadeiro, mas sim confortável.

Estou sentado na ultima fileira do ônibus, aquela de bancos unidos, na qual o contato físico é de certa forma inevitável, mas isso não me incomoda tanto. O coletivo está relativamente cheio. Relativamente cheio significa, em bom português, não estar entupido de gente. Na frente do ônibus entra uma senhora, seu caminhar não é dos melhores, porém também não é dos piores. Meu dilema começa. Primeiro sei que dificilmente alguém irá se levantar, isso costuma acontecer somente em casos de estrema invalides, e às vezes nem assim. O dilema é o seguinte, eu como ser humano, digno do reino dos céus, devo me levantar, e desta forma acenar para o outro lado do ônibus, fazendo com que a senhora atravesse todo o ônibus, aos trancos e barrancos pra se sentar, ou pouco ligar para o que a senhora sente, ou pensando em sua situação devo me erguer e gritar a todos no ônibus que dêem o lugar mais próximo a senhora, ou devo ficar em meu lugar e torcer para que a senhora arrume um bom lugar na frente, ou dentre as varias possibilidades de ação que me resta devo agarrar-me a que mais me agrada?

Sincero não significa ser verdadeiro, mas sim confortável. Entende? Tendo eu varias opções me agarro aquela que mais me conforta. E não venham me dizer que temos de fazer o que e certo, pois o certo só se fez certo por ser recompensado como tal. Ou alguém dentro desta sala acredita que o certo e o errado surgiram de outra forma? Através de uma lei quem sabe, e o que é a lei, além disso, que acabo de dizer, recompensa do que é dito como certo e punição ao seu oposto. Logo não sou verdadeiro, sou confortável, em minha sinceridade.

Cego. Não. Surdo. Não. Mudo. Não. Insípido. Não. Insensível. Não. Sinto, e sentindo vivo, sei quem sente comigo, e me sinto sentindo com eles, mas se meu sentimento não é no sentido que sentes, me desculpe por sentir diferentes.

Imagem de Caravaggio [David and Goliath]

Ps. : Não ia postar hoje, porém varias coisas me fizeram acreditar que hoje se fazia um dia ideal para que eu postasse esse texto. Quem buscar respostas nas perguntas que faço só encontrará mais dúvidas, por isso leia como quem lê os quadrinhos do jornal, e não como quem lê a bula de um remédio tentando encontrar uma doença que o apraz. Não sintas nada por mim, pois não é de mim que escrevo, mas sim dos vários outros que moram comigo dentro de mim.

domingo, 20 de abril de 2008

Sentido Imaginativo


Estava me barbeando, e comecei a imaginar como enxergava mal esse mundo. Peguei me da gilete e cortei-me um olho, bem ao meio, para que por ele não pudesse ver. Imaginava que assim sentiria melhor o mundo, mas isso não se procedeu, continuava a sentir o mundo da mesma forma. Decidi-me então a cortar o outro olho, para saber se assim sentiria melhor o mundo. Nada. Continuei a senti-lo da mesma forma, pensei que talvez a visão não influenciasse tanto assim minha percepção do mundo. Foi então que uma gota de sangue escorreu até minha boca, e ao sentir seu gosto pensei, que talvez, o que realmente influenciava minha percepção do mundo seria meu paladar. Na mesma hora, peguei-me da navalha e arranquei minha língua. Nada mudou. Talvez apenas uma sensação de vazio na boca.
O cheiro do sangue que escorria por meu rosto penetrou em minhas narinas, tive certeza, o olfato era o que contava de mais importante para minha percepção do mundo. No mesmo instante, porém com um pouco de êxito - afinal tenho que confessar, meu nariz é o que considero de mais bonito em mim; mas não o podendo ver de qualquer forma – arranquei-me o nariz. Tudo igual, já estava começando a achar que nesse mato não havia nem sequer uma barata. Até que comecei a escutar o barulho que meu sangue, já empossado entre meus pés, fazia ao pingar de meu corpo. Sim, ai estava à solução, era através, principalmente, da minha audição, que eu percebia o mundo. Com toda à vontade do mundo, e muitas esperanças no coração arranquei-me cada uma das orelhas, com um corte apenas. Sim, sim, não.
Também não era esse sentido, porém não estava triste, pois sabia que só havia me restado apenas um sentido, e entre meus dedos pude literalmente senti-lo. Mas como bom empiricísta que sou, tinha de fazer a minha última experiência, só que esta não era tão simples, afinal não me podia cortar o tato. Assim, estiquei a mão e abria a porta do armário, lembrando-me de onde guardava o que queria, fui diretamente ao lugar. Peguei meu vidro de morfina, que usava somente em momentos de eterna sanidade ou de findáveis loucuras e apliquei-me o frasco inteiro,jamais havia o feito, usava de minha morfina apenas em pequenas doses, porém, dessa vez, usei o frasco inteiro. Sabia que em algum momento eu pararia de sentir tudo, e não mais tendo percepção do mundo poderia afirmar que o tato é realmente o sentido privilegiado, essencial, para qualquer forma de apreensão do mundo.
Sim, sim, não. O mundo continuava o mesmo, nada mudara, eu continuava a imaginá-lo da mesma forma, foi então que me toquei. O mundo não é o que parece ser, e nem é como você o enxerga, prova, cheira, ouve ou simplesmente toca, não, o mundo é o que você imagina que ele seja.
Se me permitem, posso afirmar que o sentido que comanda a percepção é o sentido da imaginação. Morri logo em seguida, pois parei de imaginar, e descobri que estava realmente certo.

Imagem de Hieronymus Bosch

terça-feira, 15 de abril de 2008

Ponto


Você já foi tão bonita. O que aconteceu, me pergunto. E não contente em me perguntar, pergunto aos outros; eles dizem que nada mudou e que sua beleza continua no mesmo lugar, entretanto como não posso ver aquela beleza que vi anos atrás? Aquela que me cegava, me inspirava, me tentava. Será que fui eu que mudei? Será que meu grau aumentou? Talvez meu ideal de beleza tenha mudado, mas sendo ideal, ele pode mudar?
Partiremos do ponto que sei que é real e indiscutível. Sua beleza sumiu. Nem diminuiu, nem mudou, não é uma questão de cansaço ou amadurecimento, não foi se desgastando, ela morreu, findou-se, ponto. Ponto. Ponto que finaliza, que pede o fim, não é a pausa para respirar, nem para dar entonação à frase, é simplesmente para finalizar. Ponto, foi o que eu vi, você virou um ponto. Sei que sua vida continuará, você irá mudar, eu irei mudar, nos iremos nos falar, e talvez até nos reaproximar. Mas esse ponto parece uma mancha, uma marca, talvez não seja tão determinante, nem tão imutável assim, entretanto, se um dia essa mancha sumir, eu continuo a acreditar que mesmo assim; dá mesma forma que quando olhamos diretamente para o Sol e fechamos os olhos continuamos a ver a luz a brilhar em nosso pensamento, acho que quando fechar os olhos, ainda verei o ponto.
Não pense que estou te diminuindo, não pense que deixei de acreditar em você, sei que você será grande, bem sucedida e até quem sabe feliz. Mas não se engane, a grandeza de uma pessoa não é por ela verificada, são os outros que a afirmam, pois ser grande para si mesmo é apenas ser feliz, porém não necessariamente bem sucedido, e ser bem sucedido é apenas ser grande para os outros, também não significa ser feliz. Mas voltando a grandeza não a espere de mim, como disse, esse ponto parece não querer deixar-te, por mais que eu queira não consigo te ver por de traz do ponto.
Engraçado, hoje te vi na rua e você conversava com outro cara. Não sei se o fato dele ser outro ponto, este insignificante em minha vida, a tenha tornado uma reticência, afinal, dois pontos juntos abrem um diálogo, se um terceiro entra, continua-se uma história. Não sei, novamente senti vontade de beijá-la, entretanto para isso teria de me pontuar.
Será que a morte do escritor vale a história de um livro...?
Saí do ônibus e corri ao seu encontro, atravessei a rua, porém não vi a ambulância que cortava os carros, talvez estivesse surdo de paixão, ou quem sabe louco de ciúme. Você nem me notou,/ continuou a andar,/ a cada passo que dava,/ mais uma estória/ que eu tinha a contar./
Ponto.

Imagem de Salvador Dali - Untitled - Set Design (Figures Cut in Three), 1942

domingo, 13 de abril de 2008

Dor nas Costas


Abriu os olhos e não quis se levantar. Suas costas doíam, e a vontade de permanecer naquele instante imóvel lhe pareciam a mais confortável possível. Enrolou mais uma hora na cama. Novamente abriu os olhos. Suas costas ainda doíam, porém sua vontade mudara. O que lhe impelia agora era a simples vontade de fumar um cigarro e tomar um café. Para muitos isso pode parecer pouco, porém para ele, neste instante, era tudo. Não é que o nosso personagem não pensasse no futuro, muito pelo contrario ele pensava ate de mais, se é que isso é possível, visto que o futuro assim como o passado são meras construções do presente e para formá-los e sempre necessário pensá-los.

Mas voltando ao pensar do personagem, não é que ele não pensasse no futuro, mas aquela dor, que agora se tornara minúscula, porém insistente, parecia a seus olhos espreitá-lo, a procura de um deslize seu, um deslize que faria com que ela voltasse a galope, feliz, para as mãos de se amo que não a deseja. A dor para nosso personagem era como uma ancora que o fincava no presente, ele jamais poderia se imaginar no futuro com essa dor. Afinal, por mais que imaginemos coisas ruins para nosso futuro elas serão sempre utópicas ate que realmente se concretizem.

E simplório de mais falarmos da fome sem nunca atermos sentido, nossa fome nada mais é do que o nosso corpo nos pedindo o habitual de energia ingeridos religiosamente ou não, não é fome é ânsia, de chegarmos em casa e comer. Agora a fome de um habitante da catinga em plena seca nordestina é a esperança de, quem sabe, poder vir a comer algum dia. Percebe a diferença? Então, essa era a questão, essa dor já o incomodava tanto, há tanto tempo, que ele simplesmente não conseguia mais projetar seu futuro sem que ela não estivesse presente.

Pelo menos não estaria sozinho, pensou ele, enquanto estiver com minha dor sempre poderei contar com alguma coisa. E dela fez bengala. A mesma dor da qual tanto fugiu agora era sua aliada, e como sempre a tinha por perto passou a não precisar de mais nada. Tinha sua dor, não precisava da dor dos outros, a dor dos outros já não o comovia, pareciam pequenas perto da dele, a dele era superior, e quando não era, fazia-a parecer. Todavia o que ele não sabia e que por suas costas o milagre da vida trabalhava. O corpo não suporta algo que o aflige, diferente homem que se acostuma, se entrega, o corpo luta em silencio. Ele luta em silencio porque cansou de gritar, o homem se habitua porque cansou de lutar.

E na luta solitária e silenciosa o corpo jamais perde, pois a derrota para o corpo é a morte, enquanto houver vida à luta, mesmo que ninguém a perceba.

Abriu os olhos e não quis se levantar. Suas costas doíam, e a vontade de permanecer naquele instante imóvel lhe pareciam a mais confortável possível. Enrolou mais uma hora na cama. Novamente abriu os olhos. Suas costas ainda doíam, porém sua vontade mudara. O que lhe impelia agora era a simples vontade de fumar um cigarro e tomar um café. Ao se levantar percebeu que suas costas não doíam mais, ele não o percebera antes porque não havia tentado se mexer antes, simplesmente sabia que estava lá, não precisava mais senti-la. Imagine qual foi seu espanto quando viu que a bagagem da dor não estava mais lá.

Ela havia esvaziado o guarda-roupa e partido, sem nem ao menos lhe deixar um bilhete, era o mínimo que ela poderia lhe dar, afinal foram anos de convivência, ele já conhecia todas as suas manias, seus trejeitos, sua forma de ver o mundo se baseava na dela, ele dependia dela pra viver. É como se em um mundo sem dor ele parece-se não estar vivo, parecia flutuar, sem esperança, sem futuro, pisava no chão e não sentia mais nada. Tentava se lembrar de quando não queria a dor por perto, mas não conseguia mais. Apegara-se a ela. Então, sentado na cama começou a chorar, o choro que para muitos deveria ser de felicidade era em verdade de medo, de insegurança. Queria viver, mas viver sem dor, não sabia se seria capaz.

Levantou, ainda de pijama, abriu a porta do seu apartamento, e subiu as escadas até o terraço. Não era muito alto, tinha quatro andares no máximo, considerando o térreo. Estava sozinho, nem os pombos estavam lá aquela hora. Foi ate o parapeito, olhou para baixo, a rua, que normalmente é pouco movimentada, a exceção dos dias de feira, estava deserta, e o sentimento de vazio só crescia. O mundo inteiro parecia ter se mudado para outro mundo e o deixado ali, não como dono deste mundo antigo, mas como exilado, como desnecessário. E a dor, sua companheira de uma vida inteira, com quem contava, também o abandonara naquela manhã.

Ele subiu no parapeito, olhou mais uma vez para baixo, só para ter certeza de que estava mesmo só, fechou os olhos, e lentamente pendeu seu corpo para frente. De olhos fechados não sabia se estava preste a cair ou se seu corpo penderia ainda mais pelo vazio. Foi quando sentiu uma puxada nas costas, rapidamente imaginou se não seria a dor que retornara, ao menos para se despedir. Seu corpo pendeu para traz e tocou de forma brusca o chão do terraço. Abriu os olhos e viu uma moça, ela que mais tarde se identificaria como sua vizinha de cima, lhe contou que ao ir jogar o lixo fora notara ele se dirigindo ao terraço, e que estava pálido e com uma aparência bem ruim, ela usou nestes termos para não dizer que seu vizinho estava com cara de suicida, se é que suicida tem cara.

Ela o levou para casa e lá eles conversaram. Ela lhe contou que estava passando por uma situação bem parecida, e enquanto os dois conversavam foram percebendo o nascimento de um novo futuro, uma nova esperança, ele achava a moça divertida, imaginou filhos com ela, uma família, sabe?

Poft, foi o som que fez seu corpo ao bater no térreo de cabeça. Tudo se tornou escuro. Por mais ou menos trinta segundos pode ouvir a voz de uma moça, que, entre lagrimas e gritos, dizia que este corpo era do seu vizinho de baixo. E lá ele ficou, a dor que ele tanto procurava não voltou, a rua estava lotada, era dia de feira, só ele não vira, sua busca chegara a um fim, não posso dizer que foi seu ultimo fim, pois sendo meu, parte de mim, posso vir a precisar dele um dia.

Abri os olhos e não quis me levantar. Minhas costas doíam, e a vontade de permanecer naquele instante imóvel me pareciam a mais confortável possível.

Imagem de Edward Hopper



Ps.:
A reedição desse texto neste novo blog, bem mais organizado, foi em homenagem a uma menina a qual deposito grandes esperanças de que um dia se torne uma grande escritora.

Se, eu não poder publicar seu livro, me permita ao menos publicar um artigo teu.

Beju.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Falta de Luz


Hoje faltou luz aqui na rua, porém dessa vez a companhia de energia avisou. É realmente surpreendente. Visto que sempre nos pegam de surpresa, até quando planejam. Entretanto uma coisa era de se esperar, ela não conseguiria cumprir um prazo, isto sempre foi pedir demais. Acabou a luz, liga para empresa; senhor, estaremos concertando o problema dentro de uma hora; é, dentro de uma hora qualquer.

Bem, estas coisas acontecem, mas não é por isso que escrevo. Escrevo para lhes dizer o quanto sou apaixonado pela escuridão. Não falo do escuro parcial, nem do escuro iluminado por estrelas e pela lua. Falo dá total ausência de luz. Aquela na qual, uma vez inserido, você passa a não enxergar, uma cegueira forçada. Instintivamente arregalamos nossos olhos como que para ver se através de orifícios maiores nos é possível à apreensão de luz, entretanto esta não existe. Em um dado momento somos naturalmente levados a piscar, e deste piscar nos vem o espanto, pois ao abrirmos os olhos vemos tanto quanto de olhos fechados, e isso não nos é comum nem nas noites mais sombrias.

Que fique claro, não somos nos que entramos na escuridão, é a escuridão que nos possui. Ela não avisa, você só a percebe quando tenta não vê-la. A sensação de impotência que insurge em nosso peito, faminto de luz, necessitado de imagem; esta angustia claustrofobica de paredes inexistentes que fecham nossos olhos, e aguardam ansiosas pela confirmação de nosso toque, que clamam por nosso reconhecimento para existirem.

Todavia, a beleza da escuridão esta exatamente no oposto do que acabei de revelar. A beleza da escuridão total esta em simplesmente pararmos e escutarmos. Isso mesmo. Não podemos tocar a escuridão, e é exatamente por isso que ao vê-la procuramos desesperadamente algo sólido em que nos agarrar. Um chão, uma base, seja de localização, seja de existência, procuramos provas de que o mundo continua lá onde o deixamos e que não é porque não o vemos que ele deixou de existir.

Daí a escutarmos. Nos e nossos inúteis olhos arregalados. O silencio que é gerado pela escuridão é o silencio da solidão, do verdadeiro encontro do eu com mais ninguém, nem com ele mesmo, na escuridão só existe um. Não vá imaginar, pelo que venho dizendo, que pretendo cegar-me, ou que julgo ser a cegueira algo bom ou ruim. Pois é exatamente por não me ser costumeiro que considero esta forma de não ver tão interessante, “visto” que se cego fosse, provavelmente me apaixonaria pela luz que dá vida aos objetos. O que torna mais maravilhosa ainda esta experiência de não ver é o fato de não controlar nem seu começo e muito menos o seu fim, mesmo sabendo, e isso vem ainda a lhe render um gostinho de quero mais, que a qualquer momento tudo novamente se acenderá. Seja pela boa vontade da empresa de energia ou pela do Sol, esta última, convenhamos, bem mais segura.

Como falei, minha alegria tendia ao fim, mesmo com algumas horas de atraso, a luz retornou. E com ela pude ouvir gritos de alegria, ao que tudo em dica, eles se reencontraram com os seus respectivos eus, enquanto eu, mais uma vez, me perdi do meu.

Imagem de Van Gogh (Potato Eaters)

sábado, 29 de março de 2008

Segunda de manhã


Todo dia, todo dia. Todo dia ele estava lá. Quando não estava eu simplesmente não lembrava se o havia visto ou não. Preferia desconfiar de mim mesmo, a pensar que ele poderia não estar lá. Ele não trabalhava lá, e muito menos morava. Todos os dias ele, da mesma forma; sem camisa com uma calça jeans surrada, se sentava, enfrente ao muro da escola. Eu não estudava naquela escola. Mas assim como ele eu também passava enfrente dela, a diferença que não era sutil; que mais se assemelhava a um abismo, era que enquanto eu passava reclamando da vida, ou preocupado com a mesma, aquele senhor parecia não se importar com nada. Não que ele não tivesse problemas. Com certeza os tinha, e com mais certeza ainda posso dizer que eram piores que os meus.

Mas como posso dizer o que acabei de falar. Como posso dizer que os problemas daquele senhor são mais ou menos fáceis de serem resolvidos. Afinal problemas foram feitos para serem resolvidos, ou será que eles foram feitos, assim como as leis, para serem convividos? Afinal quem nunca resolveu um problema e logo em seguida tropeçou em um outro. Não vou dizer que os problemas não se diferem uns dos outros, isso seria uma estupidez. Entretanto por mais diferentes que possam ser os problemas, estes não podem entrar em uma lista de classificação, não posso dizer que o meu é mais problemático do que o seu, pois os problemas variam mais pela subjetividade de seu autor do que da problemática de sua situação. O difícil para um pode não ser para dois, e ate mesmo nem ser problema para três.

Voltando ao senhor sentado, o que mais me fascina não é o grau de seu problema nem a situação em que ele esta, mais que lá estando, quieto, a banhar-se no sol da manhã seja ele, não só meu, mas de todos que ali passam, esse marco, esse pólo de atenção e paz, e mesmo assim eu duvide, que alguém saiba o seu nome. O que é uma pessoa sem nome? O que é um nome sem pessoa? Como alguém pode ser tão importante sem ter um nome? E como um nome pode ser tão importante sem uma pessoa?

Para cada uma dessas perguntas possuímos um exemplo, uma idéia, um pensamento. Para cada exemplo, idéia, pensamento, um problema. Para mim, aquele senhor não possui nem exemplos, nem idéias, nem pensamentos, simplesmente, estava acima deles naquela manha de segunda.

Imagem de Henri Cartier-Bresson