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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Décima Quinta


Na décima quinta ilha ouvi essa musica vindo de um fusca náutico com GPS:

A Mulher Que Eu Amo

Roberto Carlos


A mulher que eu amo
Tem a pele morena
É bonita, é pequena
E me ama também

A mulher que eu amo
Tem tudo que eu quero
E até mais do que espero
Encontrar em alguém

A mulher que eu amo
Tem um lindo sorriso
É tudo que eu preciso
Pra minha alegria

A mulher que eu amo
Tem nos olhos a calma
Ilumina minha alma
É o sol do meu dia

Tem a luz das estrelas
E a beleza da flor
Ela é minha vida
Ela é o meu amor

A mulher que eu amo
É o ar que eu respiro
E nela eu me inspiro
Pra falar de amor

Quando vem pra mim
É suave como a brisa
E o chão que ela pisa
Se enche de flor

A mulher que eu amo
Enfeita a minha vida
Meus sonhos realiza
Me faz tanto bem

Seu amor é pra mim
O que há de mais lindo
Se ela está sorrindo
Eu sorrio também

Tudo nela é bonito
Tudo nela é verdade
E com ela eu acredito
Na felicidade

Tudo nela é bonito
Tudo nela é verdade
E com ela eu acredito
Na felicidade...


Imagem de Autor desconhecido

Musica A Mulher Que Eu Amo - Roberto Carlos


domingo, 11 de abril de 2010

Amizade


- Você não é próximo de ninguém!

- Você se engana quando diz que eu não sou próximo de ninguém.

Eu me sinto como se fosse o sol. Claro que sem seu brilho e importância. Ou talvez com seu brilho e importância em relação ao universo, ou seja, mais uma estrela entre bilhões, nem a maior nem a menor, e de certa forma necessária para meia dúzia de corpos celestes que insistem em me rodear. Mas, retomando meu raciocínio, não é que eu não seja próximo de ninguém e sim que eu vivo em ciclo junto as minhas amizades, passando dias inseparáveis como siameses e meses como desconhecidos. Assim sempre possuo pessoas próximas, entretanto que se revezam nesse processo de aproximação e afastamento elíptico. De vez em quando, cabe lembrar, um asteróide entra nessa trajetória, alguns permanecem e se tornam planetas outros simplesmente vão pairar em outros sistemas.

- Ninguém te conhece a fundo verdadeiramente!

- Mas você não pode dizer que eu sou afundo verdadeiramente alguém. Talvez só os mortos possam se dizer, caso possam dizer, que são conhecidos realmente a fundo por alguém. E, aqueles mortos que tiveram suas vidas expostas por extensas (quanto ex) bibliografias possuem prioridade na fila mortuária de seres conhecidos a fundo.

Talvez a metáfora do sol nos valha novamente. Por mais que conheçamos o sol, o estudemos, o investiguemos e previnamos (palavra feia pra diabo) suas atitudes ele ainda guarda algo de místico, algo de indecifrável e indiscernível. Alem do fato de estar constantemente em mudança, com constantes ebulições em sua superfície e por ai vai. Entretanto algo também permanece, algo que nos faz olhá-lo todo dia e recolhesse-lo como o “mesmo”. É esse “mesmo” que meus amigos conhecem, se ele esta nas profundezas abissais do meu ser ou se na superfície mais sensível da minha pele eu não sei, mas não vejo como algo supérfluo.

- Quantos amigos não voltaram dessas elipses?

- Ai que está a diferença fundamental que a principio me separa do sol, ou não. Não sei se o sol sabe, mas nos aqui da terra sabemos que as órbitas seguem certo padrão. Padrão esse que nos faz prever as marés, as estações, o ano, a hora e etc. Entretanto se o sol desconhecesse esses padrões como poderia saber quando, por exemplo, marte passaria mais perto ou mais longe de si?

Assim sou eu. Não sei quando essa aproximação ocorrerá, por isso não se surpreenda se daqui a dez anos eu encontre um grande amigo da infância e nos tratemos como se nunca tivéssemos nos separados, pois é assim que eu sou, e é assim que meus amigos orbitam (essa palavra existe?) ao meu redor. Se me critica de ser superficial por não saber da vida desse meu amigo durante todos esses anos, ou mesmo, quem sabe, de nem sequer me preocupar quanto a isso acredito eu que a aqui uma inversão de valores nesse discurso. Afinal, a superficialidade esta em ele ser o que é para mim (sempre em relação a mim) ou no emprego que ele arrumou ou deixou de arrumar, na mulher com quem se causou ou deixou de casar, os porres que tomou sem mim e os que tomou comigo, as conversas que tivemos das quais esqueceu metade? Onde esta o superficial afinal? Em mim que busco nele o que considero de mais imutável ou em você que busca nele as representações cotidianas que estão a cada segundo em profunda mudança?

Um mesmo homem não pode passar nas mesmas águas de um mesmo rio duas vezes. Certo. Nem as águas de uma piscina estática encontraram o mesmo homem as adentrando por duas vezes. Certo. Porém se fosse assim não seriamos nada além de poeira cósmica. Perderíamos completamente nossa identidade, mas o que percebemos é que algo de fixo se perpetua. Alma? Consciência? Inconsciência? Eu não saberia hoje lhe afirmar categoricamente o que é e nem se parte de mim ou do outro, que é no caso meu amigo, mas sei, que independente da direção em que esse sentimento se dá, que posso sentir algo de fixo, de permanente que me permite olhar uma fotografia de 10 anos atrás e dizer “como mudamos” sem jamais deixarmos de sermos os mesmos.

Sei que o que exponho aqui é um grande problema para muitos, mas a exceção dos juízos de valor acredito que consegui ser minimamente claro.

Imagem de George Segal

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Um amor, dois assaltos e três desilusões


(Parte 01 – Os assaltos)

Para que vocês possam apreciar a cena faço questão de imobilizá-la. Estamos dentro de uma joalheria, que fica na esquina da rua Farticio Brito com a Santo Afonso. A porta giratória que dá a entrada da loja fica milimetricamente no centro do espaço onde funciona a loja. Se estamos olhando esta porta de frente vemos a nossa esquerda a vitrine e a nossa direita a porta utilizada pelo gerente para abrir a loja pela manhã. Esta assim que aberta é logo em seguida fechada pelo próprio gerente, os demais funcionários, fornecedores e clientes entram impreterivelmente pela porta giratória que possui um sistema anti-furto que é ligado quando o gerente adentra a loja por volta das sete da manhã; e desligado apenas quando esse deixa a mesma por volta das oito da noite.

Porém a porta de uso próprio do gerente encontrasse aberta. Agora caro leitor, peço que atentem a dois detalhes, o primeiro é que estamos com o tempo estagnado e por isso nos demoramos tanto em mostrar-lhes os detalhes, coisa que em velocidade normal não nos permitiria dizer quase nada; a segunda coisa que peço para que atentem é o relógio, são sete e dez, não a motivo algum para que esta porta esteja aberta ainda a uma hora dessas. Mas vamos entrar, por favor, me acompanhem. No centro da loja temos uma cúpula que nos revela o item de mais valor dentro da loja. É um cordão de ouro branco com rubis pendurados por toda a sua extensão. Contornando a loja um longo balcão se perpetua - relógios a nossa esquerda, anéis à direita e colares e pulseiras a nossa frente - a exceção de onde estamos e de dois cantos onde encontramos dois pequenos bancos. Neles estão sentados Marcos, que devo lhes apresentar como sendo o gerente, e Milena, sua filha.

Pode-se dizer que Milena se parece com o pai em algum sentido, que seja na primeira letrado nome e no fundo branco dos olhos. E que agradeçamos aos céus por isso. Ela uma bela morena, um pouco acima do peso é verdade, mas que de pernas cruzadas sentada no banco com uma cara um pouco assustada e também amassada, pelo fato de ter acabado de acordar, era inegavelmente a coisa mais linda dentro daquela loja. E sem que tenhamos de fazer qualquer analogia a bela e a fera estava ao lado de uma das coisas mais feias, seu pai, o gerente. Baixinho e careca, daqueles que penteiam o cabelo da esquerda pra direita como se isso burlasse qualquer reflexo do espelho que se transformara sua cabeça em formato de bola de bilhar, o gerente estava sentado de cabeça baixa como que pedindo que tudo aquilo não demorasse. Se sua filha estava, em nossa perspectiva, um pouco acima do peso com certeza seu pai está um pouco acima do limite de obesidade. Apesar de não aparentar seus cinqüenta anos aquele homem carregava nos olhos, ou talvez na testa, um casamento infeliz de mais ou menos vinte cinco anos, e se há algo que podemos ver na testa daquele homem são os desgastes desse relacionamento, que o deixara com diversas fendas de preocupação, entretanto ele católico fervoroso preferiria mais vinte anos infelizes a um Deus descontente em seu encalço.

Voltando a cena como um todo, temos a cúpula central a qual nos dirigimos assim que entramos na loja, esta está com seus vidros estilhaçados, mesmo que ainda nenhum dos estilhaços tenha tocado o chão, podemos dizer que isso logo ocorrerá. Dois homens encapuzados se encontram perto da cúpula. O primeiro à esquerda da cúpula com um martelo golpeia-a fazendo a estilhaçar, seu nome é Charles e ele trabalha no cinema de frente para a joalheria, mais ainda ninguém sabe disso, só nos e André o outro encapuzado que se encontra à direita da cúpula e aponta uma arma a cabeça de nosso já famoso gerente. Sei que já estou me tornando enfadonho mais peço ao leitor um pouco mais de paciência pos já estamos acabando. Na parede de fundo da loja vemos encima do balcão a caixa registradora que parece ansiar pela funcionária que só chegará quase duas horas depois e nem trabalhará hoje. No meio da parede vemos um porta que dá para um banheiro e para a saída dos fundos que quase nunca é usada já que nosso gerente morre de medo de que possam usá-la para assaltá-lo, grande ironia que é a vida na cena em que nos encontramos. Atrás desta porta, que se encontra entre aberta, vemos a sinueta de uma pessoa que também parece estar armada. Vamos nos aproximar enquanto podemos e matar a nossa, ao menos a minha, curiosidade de saber quem é. Atrás da porta encontrasse o policial da décima nona DP cabo Resende, que esta a paisana e rente à parede. A sua frente vemos a porta do tal banheiro, e nas suas costas a porta dos fundos que não parece ter sido arrombada por ele.


Imagem de William-Adolphe Bouguereau


(Parte 02 – A fuga)

domingo, 18 de janeiro de 2009

Vigésima Quarta


Na vigésima quarta ilha me apaixonei. Lá descobri o canto e a destreza de um João ninguém, mas aquele ninguém eu queria só pra mim. Porém quando disse que eu o levaria comigo na minha viajem, foram essas palavras que eu ouvi:

- Medo. É isso que você sente em me amar. Medo. É isso que você sente em amar qualquer um. É a incerteza do meu dia somada a incerteza de si mesmo que gera a insegurança que você sente. E o engraçado que pra ouvir o meu canto você me prende. Acusa me de coisas que eu não fiz e me limita em si mesmo. Só que você não vê, ou talvez só finja não ver, a verdade é que passaro que canta acuado morre solitário ou deixa de cantar. Infelizmente, pra você, sou joão-de-barro safo, e essa jaula em que me prendes foi feito é por mim mesmo, e sendo dela mestre eu a qualquer momento me livro dessa casa e vou morar é debaixo do céu. Acha que eu estou te expulsando? Muito pelo contrario se quiser venha comigo, mas cá comigo acredito que na liberdade fria do mundo preferirá o doce aconchego de teu medo muito bem vivido.

Ele quis me levar com ele, só que viagem de passaro sabe-se como é, são poucas as horas em que se tem o pé no chão. Preferi seguir meu próprio caminho dentro da minha fortaleza marina que era minha cama. Nunca mais vi aquele João ninguém. Só estávamos eu e as flores novamente.

Na vigésima quarta ilha, um ano depois, lá estava o João ninguém a se lamentar:

- Como queria ter nascido bicho racional pra carecer de amor.


Imagem de Federigo Andreotti

domingo, 9 de novembro de 2008

Do Continente até a Ilha


A minha cama se transformará em um barco e meu baú desaparecerá, muitos dias se passaram desde então. Eu havia me livrado de todas as minhas magoas e tristezas, porém também do mundo. Esse rio que me tirou do meu quarto e me levou para esse mar incerto me obrigou a me virar sozinho por muito tempo. Sem qualquer idéia de futuro. Não sabia onde estava e nem onde queria chegar. Simplesmente naveguei. Sabia que tinha de navegar, assim sendo, levantei a ponta do meu colchão, na proa do meu barco, e arranquei a primeira madeira do estrado. Pensei por alguns segundos que isso faria meu barco naufragar, entretanto nada ocorreu. A madeira me deu uma farpa no dedo indicador, não doeu, queria que tivesse doido. Com a madeira em mãos a finquei no próprio colchão e ergui de lá meu mastro.
Tirei o lençol do colchão e prendendo-o pelas pontas fiz uma bandeira. Mas não era uma bandeira o que eu queria, eu não queria ser achado eu queria navegar. Então arrancando mais uma madeira do estrado, a segunda no caso, fiz de minha bandeira uma vela e com ela naveguei. Por dias e noites. A segunda madeira não me deu nenhuma farpa mais a ela eu pedi. Vendo o quanto a desejava ela me concedeu o pedido. Agora os meus dois dedos indicadores tinham uma farpa. Eram pequenas, por isso não incomodavam. Conforme os dias se passaram, não foram muitos, mas não saberia precisá-los, nasceu do dedo indicador direito um cravo e do dedo indicador esquerdo uma rosa. Eu não soube o que fazer com eles ate que eles mesmos me contassem. Pediram que os plantasse na próxima ilha a que eu fosse aportar. Lhes falei que não pretendia aportar em nenhuma ilha, mais na verdade eu simplesmente nunca havia imaginado a possibilidade de vir a encontrar uma. Eles me pediram então para que lhes plantasse na popa do navio. Peguei meus dois travesseiros que lá estavam e fiz de vazo para as flores, de forma a deixar ainda um espaço para que de noite pudesse me recostar.
Realmente as flores estavam certas, e eu logo aportei em uma ilha. Não imaginem que a ilha onde me encontro agora é a primeira que avistei, pois não é. Conheci piratas e baleias, sereias e princesas, até dragões juro ter visto. Vi você e me vi também. Muitos foram bons comigo, de outros não gosto nem de lembrar. Vi o nascimento do dia e da noite, vi homens morrerem e homens nascerem. Conheci José que me acompanhou em parte do caminho. As flores sempre estiveram comigo, mesmo que ás vezes as tivesse distante. Conheci Helena que me roubou o coração. Conheci Josefina que o devolveu. E assim os dias e as noites se sucederam. Minha vela alçada aos céus me levou a muitos lugares, mas foi esta ilha que eu escolhi para mim. E é daqui que conto minha historia. Da qual não vejo qualquer relevância, dela não vejo surgir nobreza nem grandes amores. Vejo muito mais simplicidade, pecado e nostalgia. Si querem saber não vejo razão para que alguém leia o que escrevo. Mais eu escrevo, talvez porque queira lembrar e temo esquecer, talvez porque queira voltar a navegar e temo me perder. Não sei o motivo nem sei se quero sabê-lo. Até lá escrevo e vocês lêem, por que se não lessem não teriam como saber que cá escrevo, e eu não saberia onde é que me perco.

Imagem de Emil Nolde

domingo, 2 de novembro de 2008

A Ilha


Por um prefacio as avessas...

Eu tinha um baú. Onde guardava todas as minhas magoas e tristezas. Era um baú grande e antigo. Todo de madeira, com as partes que ligavam as tabuas que o formavam de ferro fundido. Se assemelhava muito a esses baús de piratas que vemos nos filmes americanos. Não sei se o baú era assim por que tinha de sê-lo ou se o era pela imaginação de criança que eu tinha na época que o encontrei. Ficava no meio do meu quarto, e eu nunca havia me dado conta dele, até minha primeira grande tristeza. Não me lembro ao certo qual foi, lembro-me apenas que ele assim me apareceu, e eu já sabia para que servia. Lá fui guardando tudo que eu não queria dentro de mim. Fui guardando e deixando, ele sempre lá, no meio do quarto trancado com uma chave de ouro que eu levava em meu peito. Um dia jurei ter visto minha mãe tropeçar nele, ela disse que foi o tapete, mais eu acho que ela viu o baú, só não queria abri-lo.

Os anos foram passando e os objetos dentro do meu baú aumentando. Um dia tive outra grande magoa, corri pro meu baú, abri e lá coloquei-la. Porem o baú não queria mais fechar. Estava muito cheio e, não sei se vocês sabem, se não, saberão agora que magoas e tristezas não ocupam o mesmo lugar e nem podem ser prensadas, são duras como diamantes e ásperas como pedras. Primeiro pensei em quebrá-las, mais não tinha força. Decidi então que procuraria por uma das pequenas e a tiraria do baú levando a comigo. Comecei a esvaziar o baú, mas o reavivamento destas más lembranças me trouxe lagrimas nos olhos. Tentei guardá-las mais eram muitas e eu já não podia mais me conter. Chorei. Por dias e noites eu chorei.

Após muitos dias e muitas noites, eu em cima da minha cama, que havia se transformado em um barco, percebi que o baú já não estava mais lá. Nem o baú, nem minhas magoas, nem minhas tristezas. Tudo havia ido embora junto das minhas lagrimas. Entretanto minhas lagrimas levaram consigo muito mais do que isto. Levaram o mundo inteiro. Sentindo um tranco no meu barco-cama olhei para trás e vi uma ilha. Pequena e bonita. Muito simples e eu diria até meio simples demais. No meio da ilha encontrei cadernos e canetas nos quais escrevo essa história. Nos quais vocês lêem minhas palavras e interpretam meus signos. Assim surgiu a minha ilha. Mais ainda muito mais tenho para contar-lhes dela. Não que interessem a vocês saberem ou a mim contar. Mais algo, nesse infindo mar salgado nos une. Ainda não sei o que é, e não sei se um dia saberei. Mais até lá nada nos impede de continuar.


Imagem autor desconhecido

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Memórias de uma Mente Assaz - Construção


Estou muito tempo nesta ilha, tempo demais até pro mais sóbrio dos monges budistas. Meu passatempo nunca foi escrever, entretanto foi o que esta ilha me reservou. De uns tempos pra cá tenho tido uma série de alucinações, um misto de noites mal dormidas em adição a meia xícara de má alimentação e uma pitada de insolação, tudo batido em feridas que não mais cicatrizam. Não tenho muito do que reclamar, ao menos não estou mais sozinho, minhas alucinações de aborígines que me fazem perguntas em dialetos estranhos ao menos me servem de passatempo, tal como seria a tevê no continente. Quando aqui cheguei achei o ambiente um tanto mórbido. É verdade que a ilha é bem ensolarada, e que quase não chove, mas as plantas são acinzentadas e os animais taciturnos sendo que quase não os vejo.

Quanto aos aborígines vem de tempos em tempos, com estranhos rituais. Levam-me para o centro da floresta e lá me amarram, pouco antes de me aplicarem seus venenos, sou uma espécie de cobaia para eles. No principio achei que não eram reais, os ignorava, percebia a sua presença mais fingia não a perceber. Afinal eu era apenas um naufrago, e ainda o sou. Só que agora sou um naufrago escritor, e isso me torna perigoso. Nos primeiros dias nem eu nem eles nos comunicávamos, eu ficava em minha cama, perto da janela que dava de frente para uma bananeira. Olhava pra bananeira que me contava coisas e me dizia quem, que comigo embarcara no navio, ainda sobrevivia em alto-mar, sua altura lhe permitia tal visão. Tal como os nativos acabavam vindo de tempos em tempos parar na ilha, mas assim que se postavam a falar-me mais de meia hora eram raptadas pelos aborígines, algumas voltavam, conseguiam escapar aos bárbaros, todavia, a cada vez que retornavam pareciam mais ligadas ao mundo dos primitivos do que ao meu, e logo em seguida desapareciam. Com o tempo foram morrendo em alto-mar, eu não mais as via. Aquelas que costumavam retornar do centro da floresta não mais retornavam, viravam deuses da ilha, representados a mim apenas por imagens. Ou simplesmente eram comidas, literalmente comidas, pelo que a bananeira me explicou ser a falta de tempo da contemporaneidade. Elas não me eram próximas e nem o queria eu que o fossem, mais hoje como me fazem falta, como queria poder revelas, falar-lhes mal de suas vicissitudes. Doce esperança que mais está para uma ilusão do que para a realidade.


Imagem de Paul Gauguin

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Memórias de uma Mente Assaz - Construção


Homem. Mulher. Os dois. Será possível que eu tenha em mim ambos o sexo? Olho-me no espelho e não reconheço homem nem mulher, entretanto reconheço a mim. Um homem me fala ao pé do ouvido, enquanto uma mulher ajeita-me a roupa. Estou pronto para entrar, pelo menos é o que pensam meus pais. Subo no meu monociclo e girando sobre minha cabeça cinco garrafas de vidro atravesso a cortina vermelha e recebo as gargalhadas do publico, não sei do que riem, será que por de baixo dessa maquiagem não percebem eles a minha tristeza? Enquanto pedalo em círculos lembro-me dos acontecimentos recentes, que tem transformado minha vida em um pesadelo concreto.

Imagem de Paul Gauguin