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domingo, 7 de dezembro de 2008

Tão perto, e ainda tão longe esta


“Tão perto, e ainda tão longe esta...”

Você não vê agrade que nos separa. É a grade inescrupulosa do destino. Quem consciente da pequeneza humana teria a coragem de dizer que podemos ultrapassar essa grade. Nos vemos por entre as frestas, nos tocamos na ponta dos dedos. Nossas palavras são claras e distintas e isso é o mais frustrante, pois sabemos o quão perto estamos.

(...)

Não conhecemos o longo gradeado que nos separa. Temos medo de ir procurar uma passagem pela grade, quem sabe até mesmo um portão no destino, e não encontrando não nos encontrarmos mais também. Esse comodismo nos assola. Eu pensei em pular a grade, cavar o chão, quebrar o muro do destino. Você ficou receosa da punição, mais uma vez ficou com medo da eterna separação.

(...)

Começo a desconfiar que você não gosta realmente de mim. E isso nos afasta cada vez mais. Quando você percebe que já não te freqüento com tanta periodicidade tenta pular a grade. Consegue. E do outro lado me vê com um outro alguém. Si magoa e volta pro seu lado. Quando venho te visitar age naturalmente como se nada tivesse acontecido. Mi prefere distante a idéia de um dia não mais ter. É ai que você erra. Eu queria ti ter por segundos e lembrar o resto da vida o quanto foi bom.

(...)

Você é bicho escaldado, se me aproximo demais você foge, se me aproximo de menos você também foge. E nessa tênue linha vou te perdendo tenuamente até um dia não mais te querer. E você triste virar pra mim e falar que nunca quis me querer.

“Tão perto, e ainda tão longe esta...”


Imagem de William-Adolphe Bouguereau

domingo, 3 de agosto de 2008

A loja de doces está pegando fogo


“A loja de doces está pegando fogo”

Uma mulher gorda gritava: “A loja de doces está pegando fogo”, enquanto carregava varias caixas de doces. O incêndio lambia as paredes da loja. Os doces derretiam dando um ligeiro aroma adocicado a fumaça preta que saia pelas janelas. Os vidros estilhaçavam enquanto a mulher gorda continuava a gritar e a carregar cada vez mais doces. Ela os segurava como se fossem seus filhos e chorava a queda de um deles no chão que tinha de ser sacrificado para a salvação dos demais, e principalmente para a felicidade do seu paladar. O desespero daquela mulher se esvaiu quando ela abriu uma porta no final da loja em chamas e do outro lado o fogo já não mais ardia.

As paredes em um tom azul-bebê desta sala adjacente contrastavam com a cara e as roupas esfumaçadas daquela mulher. Que dá alguns passos na sala vazia e com toda convicção do mundo, no que ainda segurava um monte de doces, olhando fixamente dentro dos meus olhos diz: “Venha já para a queima de estoque das lojas Doce, aqui você compra o que precisa para as festas de São Cosme e Damião sem precisar se queimar no final do mês venha logo e confira”. Eu estava sentado na frente da tv meio sonolento alisando o estofado do sofá de veludo, me levantei fui até a cozinha. Abri a porta da geladeira e paguei em dinheiro uma sacola de doces da loja doce a uma baleia jubate que atendia em uma praia e tirava o troco de dentro de uma caixa de isopor.

Acordei assustado.

Eu estava sentado, com a cabeça recostada no sofá de veludo, enquanto uma mulher gorda gritava em um comercial de uma loja de doces na tv.

“A loja de doces está pegando fogo”

Imagem de Andre Derain

domingo, 22 de junho de 2008

E é lá que me perco


"...e é lá que me perco..."

Pernas bambas, lábios retraídos. As mãos procuram paredes onde se agarrar, mas só encontra o ar. Os seios procuram mãos que queiram lhes pegar, mas a cintura esperta já substituiu o seu lugar. Os olhos se reviram, mas não acham imagens. A boca faz sons, mas não acha linguagem. Mente e corpo tão distantes. A vontade do corpo nesse instante supera a vontade da mente. O corpo não respeita mais nada, é puro prazer.

"...e é lá que me perco..."



Imagem de Georges Braque