Nada, nenhuma idéia genial nem ao menos um pensamento furtivo. Mas tenho que escrever; era o que ela se dizia todo dia. Linda e inteligente por natureza. Delicada e safada por esporte. Sedução não era para ela um jogo, mas um prazer; nem ela própria entendia seus motivos e por isso também não devemos tentar entendê-los. Era simples em roupas fúteis e fútil em lugares simples e assim se destacava. Aliais se não se destacasse por isso se destacaria por todo resto. Era uma criatura fascinante. Seus cabelos entre meus dedos deixavam um cheiro que me faria lembrar dela por semanas. Nesta noite estava eu em seu apartamento. Enquanto eu trocava de canal ela, nua, na escrivaninha resmungava a sua necessidade de ter de escrever. Quando lhe perguntei o por que dessa necessidade ela me respondeu o que para muitos pode parecer escatológico, mas para mim pareceu apenas um exemplo necessário. Disse que escrever para ela era como espremer uma espinha, você pode não espremê-la e deixar que ela se desfaça sozinha ou pode simplesmente pressioná-la até que ela ecloda e de lá saia todo o pus. Se ela não escrevesse aquela espinha dentro dela eclodiria ou sumiria em algum momento, agora se ela pressionar até que saia o pus ela terá todo controle sobre aquele sentimento. E era isso que ela queria, total controle.
Perguntei então se estava faltando algo pra ela. Então ela se levantou, e aqueles seios tesos com bicos estendidos do carinho que o ar gelado do ar-condicionado lhes fazia caminharam pela sala até a estante. De costas se agachou e se agachando vi toda a conformidade das curvas de suas pernas em aquiescência como a lombar onde no centro saltavam-me aos olhos a marca do biquíni já um pouco perdida pelos tempos de inverno que se tem feito durante o dia. Novamente se levantando estendia um charuto ao qual aceitei e um cinzeiro. Abriu a garrafa de wishk e em dois copos serviu até a metade. Foi até a cozinha de onde voltou com três cubos de gelo em cada copo. Sentando na cama acendemos os charutos e brindamos. Uma hora depois eu cansado de tanto transar dormia, enquanto ela encostada nas costas da cama com minha cabeça em seu colo escrevia em um caderno velho palavras que eu nunca cheguei a ler. Quem sabe sentimentos perdido, ou novos sentimentos adquiridos.
Hoje lembrei tudo o que você já me fez sofrer, e novamente voltei a beber. Acho engraçado como velhas lembranças podem trazer velhos hábitos. O habito que eu tinha de me amar passou pra você, mas você nem notou. Perdi velhos amigos e você achou que eu nem liguei. Ganhei novos amigos e você achou que eu me perdia de você. Ela nunca foi presa a mim, sempre foi muito independente, porem necessitava que eu dependesse dela, sendo assim acho que de alguma maneira ela dependia sim de mim, sem ser aqui de forma alguma demagogo. Sua independência nunca me incomodou, pois sempre fui muito mais independente, talvez daí a necessidade dela de me prender. Ela morreria e não conseguiria, foi o que eu pensei, mas era eu que morria aos poucos. Minha felicidade passou a ser a dela, se ela não estava feliz eu ficava triste, com o tempo isso passou a acontecer sempre. Sempre que não concordávamos ela se entristecia, e como isso me machucava. E eu continuava a morrer.
Só que minha independência, o ao menos o que sobrou dela, me deu novas amizades, novos amores, novos desejos. E o eu que morria ficava apenas na parte que a ela pertencia, como um braço que apodrece, você tem duas escolhas deixar ele tomar seu corpo ou cortar-lhe fora. Eu acho que se dependesse só de mim eu todo apodreceria. Só que eu não pertenço a mim mesmo. “Cada uma (pessoa) que passa me leva um pedaço. E todas juntas não me fazem inteiro.” Dizia a mim mesmo um dia desses. Eu que sempre achei um problema não ter amizades, amores, desejos, eternos descobri que é por ser eu feito de partes, partes eternas enquanto durarem. Eu não escolho esse período, nem as pessoas, ele simplesmente acontece. Perdão aqueles que se afastaram, um perdão maior ainda aqueles que eu afastei, mas saibam que de todos só guardo boas lembranças e desejos de que retornem e de que se vão novamente, nesse fluxo interminável vocês me formam.
Conhecerei ao mundo inteiro, sem nunca me dar por inteiro, o mundo só me conhecerá em parte. Essa é a minha sina, esse será meu pecado.
Para que vocês possam apreciar a cena faço questão de imobilizá-la. Estamos dentro de uma joalheria, que fica na esquina da rua Farticio Brito com a Santo Afonso. A porta giratória que dá a entrada da loja fica milimetricamente no centro do espaço onde funciona a loja. Se estamos olhando esta porta de frente vemos a nossa esquerda a vitrine e a nossa direita a porta utilizada pelo gerente para abrir a loja pela manhã. Esta assim que aberta é logo em seguida fechada pelo próprio gerente, os demais funcionários, fornecedores e clientes entram impreterivelmente pela porta giratória que possui um sistema anti-furto que é ligado quando o gerente adentra a loja por volta das sete da manhã; e desligado apenas quando esse deixa a mesma por volta das oito da noite.
Porém a porta de uso próprio do gerente encontrasse aberta. Agora caro leitor, peço que atentem a dois detalhes, o primeiro é que estamos com o tempo estagnado e por isso nos demoramos tanto em mostrar-lhes os detalhes, coisa que em velocidade normal não nos permitiria dizer quase nada; a segunda coisa que peço para que atentem é o relógio, são sete e dez, não a motivo algum para que esta porta esteja aberta ainda a uma hora dessas. Mas vamos entrar, por favor, me acompanhem. No centro da loja temos uma cúpula que nos revela o item de mais valor dentro da loja. É um cordão de ouro branco com rubis pendurados por toda a sua extensão. Contornando a loja um longo balcão se perpetua - relógios a nossa esquerda, anéis à direita e colares e pulseiras a nossa frente - a exceção de onde estamos e de dois cantos onde encontramos dois pequenos bancos. Neles estão sentados Marcos, que devo lhes apresentar como sendo o gerente, e Milena, sua filha.
Pode-se dizer que Milena se parece com o pai em algum sentido, que seja na primeira letrado nome e no fundo branco dos olhos. E que agradeçamos aos céus por isso. Ela uma bela morena, um pouco acima do peso é verdade, mas que de pernas cruzadas sentada no banco com uma cara um pouco assustada e também amassada, pelo fato de ter acabado de acordar, era inegavelmente a coisa mais linda dentro daquela loja. E sem que tenhamos de fazer qualquer analogia a bela e a fera estava ao lado de uma das coisas mais feias, seu pai, o gerente. Baixinho e careca, daqueles que penteiam o cabelo da esquerda pra direita como se isso burlasse qualquer reflexo do espelho que se transformara sua cabeça em formato de bola de bilhar, o gerente estava sentado de cabeça baixa como que pedindo que tudo aquilo não demorasse. Se sua filha estava, em nossa perspectiva, um pouco acima do peso com certeza seu pai está um pouco acima do limite de obesidade. Apesar de não aparentar seus cinqüenta anos aquele homem carregava nos olhos, ou talvez na testa, um casamento infeliz de mais ou menos vinte cinco anos, e se há algo que podemos ver na testa daquele homem são os desgastes desse relacionamento, que o deixara com diversas fendas de preocupação, entretanto ele católico fervoroso preferiria mais vinte anos infelizes a um Deus descontente em seu encalço.
Voltando a cena como um todo, temos a cúpula central a qual nos dirigimos assim que entramos na loja, esta está com seus vidros estilhaçados, mesmo que ainda nenhum dos estilhaços tenha tocado o chão, podemos dizer que isso logo ocorrerá. Dois homens encapuzados se encontram perto da cúpula. O primeiro à esquerda da cúpula com um martelo golpeia-a fazendo a estilhaçar, seu nome é Charles e ele trabalha no cinema de frente para a joalheria, mais ainda ninguém sabe disso, só nos e André o outro encapuzado que se encontra à direita da cúpula e aponta uma arma a cabeça de nosso já famoso gerente. Sei que já estou me tornando enfadonho mais peço ao leitor um pouco mais de paciência pos já estamos acabando. Na parede de fundo da loja vemos encima do balcão a caixa registradora que parece ansiar pela funcionária que só chegará quase duas horas depois e nem trabalhará hoje. No meio da parede vemos um porta que dá para um banheiro e para a saída dos fundos que quase nunca é usada já que nosso gerente morre de medo de que possam usá-la para assaltá-lo, grande ironia que é a vida na cena em que nos encontramos. Atrás desta porta, que se encontra entre aberta, vemos a sinueta de uma pessoa que também parece estar armada. Vamos nos aproximar enquanto podemos e matar a nossa, ao menos a minha, curiosidade de saber quem é. Atrás da porta encontrasse o policial da décima nona DP cabo Resende, que esta a paisana e rente à parede. A sua frente vemos a porta do tal banheiro, e nas suas costas a porta dos fundos que não parece ter sido arrombada por ele.