domingo, 7 de dezembro de 2008

Tão perto, e ainda tão longe esta


“Tão perto, e ainda tão longe esta...”

Você não vê agrade que nos separa. É a grade inescrupulosa do destino. Quem consciente da pequeneza humana teria a coragem de dizer que podemos ultrapassar essa grade. Nos vemos por entre as frestas, nos tocamos na ponta dos dedos. Nossas palavras são claras e distintas e isso é o mais frustrante, pois sabemos o quão perto estamos.

(...)

Não conhecemos o longo gradeado que nos separa. Temos medo de ir procurar uma passagem pela grade, quem sabe até mesmo um portão no destino, e não encontrando não nos encontrarmos mais também. Esse comodismo nos assola. Eu pensei em pular a grade, cavar o chão, quebrar o muro do destino. Você ficou receosa da punição, mais uma vez ficou com medo da eterna separação.

(...)

Começo a desconfiar que você não gosta realmente de mim. E isso nos afasta cada vez mais. Quando você percebe que já não te freqüento com tanta periodicidade tenta pular a grade. Consegue. E do outro lado me vê com um outro alguém. Si magoa e volta pro seu lado. Quando venho te visitar age naturalmente como se nada tivesse acontecido. Mi prefere distante a idéia de um dia não mais ter. É ai que você erra. Eu queria ti ter por segundos e lembrar o resto da vida o quanto foi bom.

(...)

Você é bicho escaldado, se me aproximo demais você foge, se me aproximo de menos você também foge. E nessa tênue linha vou te perdendo tenuamente até um dia não mais te querer. E você triste virar pra mim e falar que nunca quis me querer.

“Tão perto, e ainda tão longe esta...”


Imagem de William-Adolphe Bouguereau

domingo, 30 de novembro de 2008

Curtas


Só. Somente só sei o que em mim falta saber. Não temo a solidão, apenas não gosto que me tirem dela sem eu pedir ou que a ponham em mim seu eu querer. Só; projeto o futuro, idealizo o passado e amargo o presente. Acompanhado; projeto o passado, idealizo o presente e amargo o futuro.
As flores que a dias navegavam comigo se transformaram em cactos por não terem mais o meu coração para fertilizar o colchão onde estavam plantadas. Um dia, enquanto dormia, aproveitaram o balanço da cama-barco e se arrastaram até mim. Alojaram-se então no buraco vazio onde antes batia o músculo do amor. Lá estando transformaram-se em um novo músculo. Depois de um tempo, me olhando no espelho d’água de uma noite de lua cheia descobri que cactos também florescem.

Uma cerveja.
Sou feliz com o pouco muito que tenho, mais mesmo assim ainda procuro o muito pouco que não tenho. A! ser humano o ser menos humano que se tem.

Três cervejas.
Sozinho o diabo veio me falar. Disse doce, disse pra eu lhe amar. Neguei o diabo pensando em transar, aceitei a dor pensando pecar. A! oceano profundo que vem me chamar. Quem sabe um dia vem a aceitar. Se no oceano parar saibam que vim a ficar.

Cinco cervejas.
Sabendo que falo escuto que ouço. A magrela corre pelo quatro enquanto a gordinha cisma em dormir.

Seis cervejas
Bebo para não lembrar de esquecer que esqueço de amar você.

Não ligo que digo que falo, se falo falo alto se digo digo baixo.

Nada faz sentido e eu nem queria que fizesse.

Imagem de Henner, Jean Jacques

domingo, 23 de novembro de 2008

Curtas


Ando, ando, ando. Na minha cabeça não estão as pedras do chão, nem as formigas que carregam folhas enormes, nem as fachas que sinalizam onde devo atravessar. Na minha cabeça esta você. A falta de te ver aumenta o meu querer ti ter. Ti ter não para mim, não como minha. Ti ter por breves instantes, por breves suspiros, doces palavras, poucas canduras. Simplesmente ti ter. Saber que você só pensa em mim naquele momento e ter a certeza que eu só penso em você. Ser seu, ser meu, ser nosso. Mais apenas por alguns instantes. Antes que a monotonia venha sentar-se conosco na mesa do bar. Antes que as pregas do tempo retirem o assunto, não de nossas palavras; por que estas jamais serão vazias, mais de nossos olhares. Antes que eu te chame por apelidos carinhosos, antes que nos conheçamos por inteiro em cada detalhe. É antes disso que ti desejo. É antes disso que quero estar com você.

E depois? Você me pergunta. Depois não sei. Agora quero o segundo, quero a chuva que cai, não a poça que se forma, quero o calor que aquece, não os raios que iluminam, quero sangue, não soro, quero guerra, não paz. Quero você, não o futuro.

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Esses breves instantes se tornaram verdade. O futuro se mostra sempre próximos daqueles que amam.

Levantou-se e andou até o lado onde ela estava sentada. Partia no mesmo sentido de quem ia ao banheiro, ela em nada desconfiou. Estancou de repente e ao lado dela se ajoelhou. Do bolso direito retirou uma caixinha que abriu e mostrou a ela. Ela abriu e lá tinha não um anel mais um bilhete. Onde estava escrito:

-Te amo, não sei até quando. Casa comigo e te amarei até último instante em que te amar.

Viveram felizes para sempre...

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Passou. Você passou. Não te quero mais.

Foram as últimas palavras que ela disse. Depois levantou, pegou o coração dele que estava no prato e pediu ao garçon que embrulhasse pra viagem. Guardo na bolsa para comer mais tarde. Ele, já vazio, não reclamou. Encontraram-se como amantes, se despediram como amigos, se odiaram como inimigos.

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Queria escrever uma historia de amor que desse certo. Porém preso pela primazia inconstante dos fatos. Me perdoe a falta de credibilidade na vida mas entenda que até o fim será muito mais que só despedida. Ame-me a cada segundo como se fosse o último, pois assim viveremos minutos infinitos.


Imagem de Julien Dupré