domingo, 21 de setembro de 2008

Curtas


Cansei.

Minha pele que ardia não arde mais.

Minha fome que doía não me incomoda mais.

Preciso dormir.

E não acordar mais.

Tudo virará lembrança.

E na desilusão de um sonho dormirei desiludidamente feliz.

Não me acompanhe.

Levarei meus livros, e lá me deitarei.

Não quero mais nada.

(...)

Mesmo assim, se quiser, visite-me. Mas vá embora antes que eu me canse, ou antes que você ache que pode substituir qualquer uma das coisas acima.

(...)

Coisas são constantes, pessoas não.

Que triste vida leva Adrian em sua ilha...


Imagem de Goya, Francisco

domingo, 14 de setembro de 2008

Curtas


Pensei em escrever sobre a escolha, sobre o engajamento e, principalmente, sobre a liberdade. Porém ao refletir um pouco mais tarde, não sei se por causa da febre que assola esse corpo, não sei se pela ardência que queima meu rosto, decidi pela via poética.
Sim isso é poesia, mesmo que em prosa, e se não for não vou lá me preucupar com nomeações. Se não é poesia é no mínimo poético, é no mínimo libertador. Mesmo que o homem esteja condenado a ser livre, condenado a escolher, condenado a reiterar escolhas para que elas continuem escolhas e não virem passado, mesmo assim escreverei sobre a beleza da liberdade de imaginar.
Quem quizer procurar liberdade, escolha, engajamento deve se dirigir a reitoria da UERJ pois lá se encontraram todos esse elementos...
Tendo dito, libero meu imaginar em oposição a minha razão.
No juizado do conhecimento a razão foi acusada, por ela mesma, de falsidade. Falsidade de vender algo do qual não possui. O julgamento foi marcado. E como defesa, acusação, e júri eram as mesmas pessoas ninguém faltou. Naquele domingo a razão ia a julgamento. A condenação da razão parecia impossível. Qualquer crime e pena que se dite a razão estava cercada. Condenar-se, a razão mesma, era condenar a todos naquele tribunal. Então Kant deu a voz de prisão: “já que não podemos condenar nós mesmos limitemos a razão...”. Desde então venho tendo pesadelos, minha razão vendo minha imaginação voar, se pergunta se não seria melhor ter sido condenada a morte do que ficar eternamente nesta gaiola?
Mas no final das contas sou condenado mesmo a ser livre, por que quem dirá que não sou eu também imaginação...Minha própria liberdade de voar.

Imagem de Autor Desconhecido

domingo, 7 de setembro de 2008

Árvore da Vida


Procuro um livro. É um livro específico e bem difícil de se encontrar. Não sei se o é difícil de se encontrar porque o procuro, ou se o procuro porque é difícil de se encontrar. Afinal se não fosse difícil de se encontrar já o teria encontrado, logo já não mais o procuraria. Se o procurasse porque é difícil de se encontrar eu teria assim a probabilidade de jamais o encontrar, exatamente por ser difícil.
Assim percorro as livrarias do centro da cidade. Com o Sol na minha nuca e um peso em minhas costas. Minha busca é dispersa. Assim é, pra que eu não me enlouqueça, buscas secundarias aliviam a pressão da principal.
Vejo a vida dessa maneira. Busca infinita de significados, enraizadas por buscas secundarias de significantes. Que ciclo vicioso é a arvore da vida. Mesmo assim tão diversa, tão ambígua, contradições que não se contradizem, signos que nada representam. O fim de sua existência não se dá, não existe. Pois ela nunca o realizará. Quando morrer, e será breve, da morte nada levará, da mesma forma de que nada levou do seu nascimento.
No centro da cidade finalmente o encontro. O vejo de longe, lá está ele. O livro que tanto procurei, o tronco da minha árvore. Aperto o passo, tão firme e seguro quanto o do ônibus que vem em minha direção. Ouço a sua buzina, os pneus travando seus gomos no chão cantão e deixam suas marcas, como garras no asfalto.
Minha existência termina. Independentemente da realização ou não do meu encontro. Sou perfeito. Sou tudo o que podia ser. Não sou mais nem menos, sou perfeito, tal como uma pérola que se molda no ventre de uma ostra na mais imensa escuridão da qual pudesse ela lá moldar.
Sou finalmente tudo...

Imagem de William-Adolphe Bouguereau